É
impressionante como Paulo pode, em apenas dois versículos, concentrar tantos
ensinos. Ele inicia o capítulo com um verbo apelativo: rogar. Esse termo nos faz
sentir que havia um grande anseio no coração de Paulo em transmitir, àqueles que
designa como: “chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1.6), princípios
importantes para a vida cristã vitoriosa. Paulo sabia, muito bem, que os
discípulos que compunham a comunidade em Roma, viviam em uma sociedade
tremendamente pecaminosa e, agora, convertidos à fé cristã, nela deveriam viver,
integralmente, como novas criaturas em Cristo Jesus.
O
mesmo acontece conosco hoje. Nós, discípulos do Senhor Jesus, vivemos, também,
em uma sociedade corrupta e é nela que devemos testemunhar a vida cristã
autêntica. A ciência e outros aspectos da sociedade humana evoluíram, enquanto a
vida moral, a ética e a conduta continuam sob as mesmas falhas, erros, pecados e
maldades de todas as épocas anteriores. É nessa sociedade impiedosa que, como
cristãos, precisamos expressar os valores da vida do Senhor que reside em
nós.
O
anseio de que os cristãos vivam a nova vida que possuem em Cristo ativamente -
vida completamente diferente da forma que o mundo apresenta - levou Paulo a
fazer essa veemente súplica: “Rogo, pois, irmãos”. É um caloroso chamado que seu
zelo apostólico faz àqueles que nasceram de novo em Cristo Jesus. Escrevendo aos
Gálatas, Paulo demonstrou o mesmo cuidado para aqueles que estavam sob seu
pastoreio: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser
Cristo formado em vós” (Gálatas 4.19). A diligência pelos filhos espirituais o
levava a desmedidos sacrifícios!
O
que, agora, Paulo roga aos romanos é, justamente, em outras palavras, o mesmo
que requereu dos Filipenses: “Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho
de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós
outros, que estais firmes em um só espírito, com uma só alma, lutando juntos
pela fé evangélica” (Filipenses 1.27). Os que já nasceram de novo, apesar de
estarem unidos a Cristo por uma aliança eterna, precisam, entretanto, moldar
ainda mais as suas vidas segundo aquilo que o Senhor quer encontrar neles:
obediência total à sua vontade que é boa, agradável e perfeita.
Nós
não alcançamos automaticamente o caráter perfeito e santo que vemos em Cristo
Jesus, quando nascemos de novo. Alcançá-lo depende de uma disposição do nosso
coração de efetivar aquilo que Deus reservou para fazermos. Há,
conseqüentemente, uma carreira a correr e uma vitória a alcançar. Bem-aventurado
é aquele que se propõem, consigo mesmo, chegar ao clímax que Paulo chegou ao
dizer: “estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo
vive em mim” (Gálatas 2.19,20).
Notemos que o rogar de Paulo é
motivado por um fato muito forte e nobre. É “pelas misericórdias de Deus”. Nós
sabemos que tudo que Deus fez, faz e fará por nós, provêm de sua misericórdia.
Paulo coloca o termo no plural – “misericórdias” -, pois, elas são incontáveis e
indizíveis. São inúmeras as misericórdias que recebemos de Deus, sendo que a
maior delas é a nossa salvação eterna na pessoa de seu Filho. O sacrifício vivo,
único e perfeito, realizado em nosso lugar, substituindo-nos, é o maior apelo
que possamos ter, conclamando-nos a oferecer a Deus, também, um sacrifício vivo,
santo e agradável dos nossos corpos, fazendo-lhe, perfeitamente, o que lhe
agrada.
Se
nós somos filhos de Deus, o somos pela sua compaixão para conosco. Dessa forma,
devemos tomar para nós a exortação apostólica: “Como filhos da obediência, não
vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo
contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós
mesmos em todo o vosso procedimento, porque está escrito: Sede santos, porque eu
sou santo” (I Pedro 1.14,15). Eis o perfeito sacrifício vivo que devemos fazer
em resposta às “misericórdias de Deus”. Não há motivação maior para que vivamos
a vida de santidade do que a gratidão que temos pelas misericórdias de Deus,
que, diariamente vem ao nosso viver!
Paulo
roga, entretanto, que, “pelas misericórdias de Deus”, apresentemos nossos corpos
“em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Certamente o Apóstolo está
lembrando que na cruz foi feita a perfeita oferenda “Viva, santa e agradável a
Deus” por todos nós. E Deus a aceitou pois foi feita pelo seu Filho. Assim como
Jesus fez esse sacrifício por nós, devemos nós, também fazê-lo a Deus em
gratidão ao que dele recebemos.
Que é
apresentar o nosso corpo por sacrifício vivo? Primeiro, afirmamos que Deus não
deseja rituais, sacrifícios abstratos, místicos, sentimentais. O que ele quer é
algo bem prático. Ele espera que apresentemos a nós mesmos diante dele, com atos
concretos, práticas diárias e contínuo viver segundo a sua vontade. Sacrifício
vivo é a oferta que se expressa com a vida -. Nessa mesma carta, Paulo já
ensinou: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte, mas se,
pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (Romanos
8.13).
Aqui
está o sacrifício vivo que nos é pedido: “mortificar os feitos do corpo”. Isso
significa que os atos que fazemos impulsionados por nossa carne e que não
correspondem à vontade de Deus, devem ser dizimados e queimados no altar, diante
dele. E, as cinzas que restarem, devem ser jogadas fora do arraial, como os
israelitas faziam com as sobras sem valor dos animais sacrificados (Êxodo
29.14), ou seja, devemos retirar de nós todos os resíduos da velha vida que
permanecem em nós e que nada mais significa para nós que vivemos, plenamente, a
nova vida em Cristo.
Recordemos que toda a depravação da
raça humana se expressa através do corpo. Vejamos como age o homem estranho a
Deus: o seu cérebro – parte essencial do corpo – programa o mal que ele deseja
executar; seus olhos vêem somente o que é impróprio; sua língua profere a
mentira, o engano, a maledicência; os pés são rápidos em correr pelo mau caminho
e as mãos apressam-se em ferir, agredir, apossar-se do que dos outros.
Comandados pelo cérebro desvirtuado seus sentimentos e atitudes são,
verdadeiramente, pecaminosos.
A
santidade cristã, da mesma forma, se efetivar através dos membros do corpo em um
sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Isso começa com a mortificação dos
atos que, em nós, são da natureza carnal, fazendo com que cada membro do corpo
opere de acordo com os comandos do cérebro que se rege pela vontade de Deus.
Assim, a mente pensará com a
sabedoria que lhe vem do Alto; a língua falará a verdade eterna e entoará
louvores ao Senhor; os olhos estarão voltados para Jesus assimilando sua pureza
e integridade; os pés se apressarão a andar pelos caminhos justos; as mãos irão
abençoar e o coração se derramará em amor, até mesmo, para com os que maltratam,
perseguem e fazem todo o mal.
È
isso que significa “sacrifício vivo” – oferenda que expressa a vida de Cisto em
nós! Também, jogar fora tudo o que não vem de Deus e valorizar tudo que dele vem
a nós. Nessa mesma carta aos Romanos, 6.13, Paulo escreveu: “Não reine,
portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas
paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como
instrumentos de iniqüidade, mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os
mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça”. Isso é culto
racional a Deus!
A
seguir, Paulo faz outro apelo necessário: “não vos conformeis com este século”.
Saibamos que o século – o mundo – negligencia a vontade e o propósito que Deus
tem para ele, buscando atender somente a seus próprios interesses humanos. É
fácil, muito fácil, acomodar-se com o século – o mundo e seu sistema pecaminoso.
Não é difícil acomodar a vida aos padrões do mundo. Quantos cristãos estão
fazendo isso e tendo prazer em conformar-se com a vida dúbia que levam.
Há
uma palavra de ordem que vem de Jesus: “Não vos assemelheis, pois, a eles”
(Mateus 6.8). Não podemos nos acomodar à cultura predominante do mundo dos
homens insubmissos a Deus e que o aborrece. Escutemos o que Paulo nos diz em
Colossenses 3.1: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo,
buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus.
Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e
a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus”.
“Transformai-vos”, é a chave que o
texto apresenta para que possamos apresentar nossos corpos em sacrifício vivo a
Deus. E essa transformação começa com a nossa mente. A transformação da mente é
o ponto básico para que seja visível em nós a vida que Deus planejou para os que
são seus, e que é visível na pessoa de seu Filho. Nossa mente precisa ser
esvaziada de tudo que não provém de Deus e ser impregnada com tudo que dele
procede. Essa é uma transformação que nos compete fazer.
O
texto indica o que deve predominar em uma mente regenerada: “a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus”. Só uma mente restaurada pode discernir, obedecer e
expressar a mente de Cristo. Os filhos de Deus precisam ter mentes totalmente
conformadas aos padrões divinos, pois, um dia, quando menos esperarmos estaremos
diante do Senhor que declarou ser “aquele que sonda mente e corações”
(Apocalipse 2.23). Nossas mentes serão perscrutadas em seus mínimos detalhes,
pois, é na nossa mente que elaboramos todo o bem ou todo o mal que praticamos.
Outra
importante expressão do texto é: “para que experimenteis [...] qual seja [... a]
vontade de Deus”. É uma riqueza espiritual valiosa, quando, por experiência
própria, podemos provar a excelentemente boa, a extremamente agradável e a tão
perfeita vontade de Deus para a nossa vida, pois, ela expressa o seu desejo de
que sejamos exatamente como seu Filho é.
Nós
temos recursos valiosos e acessíveis que nos ajudam a renovar nossa
mente:
1. A
Palavra de Deus. Uma mente cheia da Palavra direcionará toda a nossa vida
mental, conseqüentemente, todo o nosso ser e o nosso fazer será moldado por ela.
A palavra é a espada do Espírito que Efésios 6.17 indica como a arma preciosa em
nossas lutas espirituais. Aconselhamos a todos lerem o salmo 119 e encontrarem
nele a demonstração do que a Palavra é, e os inúmeros valores que ela possui,
para a renovação da mente.
2. O
Espírito Santo. Ele é a pessoa mais interessada em renovar nossa mente, pois,
ele quer moldar em nós a mente do Senhor Jesus Cristo. A nossa mente, sob a
graça e unção do Espírito, presidirá nossa vida interior pautando-a com a
sabedoria do Alto. É o Espírito que leva a nossa mente a possuir, de forma ampla
e nova, a visão de todas as realidades espirituais de Deus.
Ele
nos faz, verdadeiramente, ser e agir dentro do que é esperado de nós como novas
criaturas. Ele nos fortalece para que, realmente, estejamos vivendo como
nascidos de novo em Cristo Jesus. É através dele que Deus cumpre a promessa de
imprimir em nossas mentes as suas leis, conforme fala Jeremias 31.33. É ele quem
guarda o nosso coração e mente em Cristo Jesus (Filipenses 4.7).
3. A
oração. Ela sempre nos levará bem junto a Deus e, assim, dele recebermos força,
auxílio e graça para uma total restauração mental. Quando oramos Deus edifica
nossa mente e fortalece nosso espírito. Que a nossa súplica sempre seja: Renova,
Senhor, a nossa mente para que te conheçamos mais e mais.
Quão
tremendo é esse expressivo apelo que Paulo soube sintetizar em apenas dois
versículos. Apelo que deve nos levar à experiência que precisamos, hoje,
alcançar, ou seja, conhecer a grandeza da vontade de Deus para conosco. Deus não
nos quer pequenos, pobres, inferiores. Ele nos quer levar “à perfeita
varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4.13). Sua
vontade, realmente, é de que sejamos seus filhos como seu Filho, Jesus Cristo é.
Para isso ouçamos o apelo: “seguindo a verdade em amor cresçamos em tudo naquele
que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4.15). Amém.
Erasmo Ungaretti
fonte: adorar.net