Mostrando postagens com marcador Evangelhos apócrifos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Evangelhos apócrifos. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ENFRENTAND O LEAO


Enfrentando o Leão

Um terrível brado penetra o acampamento. Os nativos aterrorizados gritam: ‘Tomem cuidado, irmãos, o diabo está chegando!’. Porém, o clamor do aviso não ajudará em nada e, mais cedo ou mais tarde, gritos agudos e agonizantes quebrarão o silêncio, e outro homem não responderá à lista de chamada na manhã seguinte.[1]
Era março de 1898 e o estudante de engenharia John Henry Patterson, de 31 anos, estava no Quênia para construir uma ponte ferroviária sobre o rio Tsavo. Logo após a sua chegada, dois cruéis leões devoradores de homens começaram a aterrorizá-lo e a seus trabalhadores. Patterson escreveu em seu diário: “Nada os perturba ou assusta, e eles mostram um completo desprezo por seres humanos, exceto como alimento”.[2]
Essas feras eram tão perspicazes que os trabalhadores nativos começaram a acreditar que realmente eram o Diabo no corpo de leões. Até serem mortos, tinham devorado cerca de 140 trabalhadores.
As Escrituras alertam que Satanás, como um leão, também é um predador que ataca incansavelmente suas vítimas. O apóstolo Pedro, que aprendeu por experiência própria o que é ser usado pelo Diabo, avisou: “Sede sóbrios e vigilantes. O Diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1 Pe 5.8, cf. Mt 16.23).
Vencer Satanás requer vigilância diária, a cada momento. Uma vida de fé em Jesus Cristo é uma vida de implacável conflito espiritual. Se você falhar em equipar-se para ele, colherá as conseqüências. O alvo de Satanás é devastar a humanidade; mas, ainda mais, aniquilar a vida dos cristãos.
Portanto, os cristãos precisam aprender e usar três princípios essenciais para posicionar-se contra o Maligno: todo cristão precisa (1) manter uma posição firme no conflito, (2) empregar a proteção apropriada para o conflito, e (3) sempre manter uma perspectiva correta do conflito.

Uma Posição Firme

Os leões de Tsavo eram os reis de sua própria terra. Eles enfrentavam qualquer um. As Escrituras chamam Satanás de “o príncipe deste mundo” e “o deus deste século” (Jo 12.31; 2 Co 4.4). Porém, o seu reino está sujeito à vontade de Deus (Jó 1.12). Com isso em mente, a primeira lição na luta é aprender tudo o que você pode sobre seu inimigo: “Nem deis lugar ao Diabo...”; “...para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios” (Ef 4.27, 2 Co 2.11).
Infelizmente, muitos cristãos são ignorantes, principalmente na doutrina bíblica. Como os leões, Satanás e seus demônios rondam procurando oportunidades de espalhar idéias falsas. A maior defesa é estudar, conhecer e praticar a Palavra de Deus diariamente. Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31-32). Satanás é um mentiroso (Jo 8.44). O segredo é avaliar todas as coisas pela Palavra de Deus.
Foi uma visão terrível encontrar restos repulsivos dos trabalhadores que haviam sido atacados pelos leões de Tsavo. Patterson prometeu eliminar os leões do local e terminar a sua ponte. Os cristãos precisam ter a mesma resolução e permanecer firmes contra Satanás. Primeiro, ter certeza em seu coração de que o Senhor Jesus verdadeiramente é o seu Salvador pessoal (Jo 3.16). Confesse todos os pecados conhecidos (1 Jo 1.9). Deseje, com a ajuda de Deus, abandonar a prática habitual de todo pecado (Pv 28.13). E, finalmente, renda sua vida e tudo o que você tem a Deus: “Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

A Proteção Adequada

“Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas...” (2 Co 10.3-4).
John Patterson caçou os leões usando um rifle inglês de calibre .303 bolt-action e uma espingarda de caça calibre 12. Ele os avistou diversas vezes, e até os surpreendeu em uma ocasião. Mesmo assim, eles escaparam. Em desespero, ele sabia que precisava usar todo o seu treinamento e sua habilidade com armas para ser capaz de matá-los.
Nós, também, precisamos usar armas específicas contra Satanás. Apesar de diferentes, elas requerem prática e habilidade para serem usadas competentemente:
“Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas...” (2 Co 10.3-4).
Nossa armadura de guerra encontra-se em Efésios 6.11-18. A imagem usada é a de um valente soldado romano. Para prevalecer contra o Maligno, os cristãos precisam, necessariamente, vestir “toda a armadura de Deus” (Ef 6.11):

Cinto

A primeira linha de defesa é a “verdade” (Ef 6.14). O termo significa ter a mente livre de fingimento e falsidade. Satanás depende de mentiras e engano. “Cingir-nos com a verdade” é a proteção forte contra a hipocrisia.

Couraça

Um soldado romano vestia uma couraça para proteger seu coração e seus órgãos vitais. Um cristão precisa vestir a “couraça da justiça” (Ef 6.14b). Satanás é um acusador, que aponta constantemente a falta de merecimento dos seguidores de Cristo (Ap 12.10). Essa tática pode ser extremamente desencorajadora.
Porém, Cristo tratou das acusações contra nós concedendo-nos Sua justiça: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.21). Assim, não há necessidade de desespero: “Pois, se o nosso coração nos acusar, certamente, Deus é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas” (1 Jo 3.20).
Permitindo que Deus nos torne “conformes à imagem de Seu Filho” (Rm 8.29), Sua santidade é revelada em nossa vida na forma de uma defesa forte e diária; e podemos nos revestir “do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24).

Calçado

Sandálias robustas e com cravos nas solas davam uma base confiável ao guerreiro. Em superfícies lisas, porém, elas eram perigosas por falta de boa tração. Os seguidores de Cristo obtêm a segurança de um fundamento confiável através do Evangelho da paz: Jesus Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado, ressurgiu ao terceiro dia, e foi visto por muitos (1 Co 15.3-6). O inimigo quer muito fazer você deslizar, com programas e doutrinas falsas. Os crentes precisam tomar cuidado para não escorregarem em suas emboscadas. A Boa Nova de Cristo é a única base sólida para firmar-se.

Escudo

Um soldado da infantaria romana nunca ia à batalha sem seu escudo. Geralmente ele era grande e retangular, com uma leve curvatura nos lados para a proteção corporal.
As Escrituras nos contam que Satanás atira constantemente “dardos inflamados” na forma de muitas tentações. O propósito principal de embraçar “sempre o escudo da fé” é apagar os seus dardos (Ef 6.16). Um escudo romano também servia para encaixar-se com outros escudos, para criar uma eficiente “formação tartaruga” na batalha. A junção de escudos da fé com outros crentes cria uma defesa formidável contra os assaltos espirituais (Sl 37.40).

Capacete

O capacete também era bem projetado. Ele tinha uma aba traseira para proteger a nuca de qualquer golpe. As abas de cada lado protegiam a face, e a da frente protegia contra pancadas direcionadas à cabeça ou à face. Obviamente, esse equipamento era vital.
“capacete da salvação” aponta para nossa “esperança de salvação” (1 Ts 5.8). A palavra esperança significa “expectativa alegre e segura da libertação eterna”. O Maligno procura golpear nossas cabeças para plantar nelas sementes de dúvida e desespero. Entretanto, o capacete dos crentes verdadeiros está firmemente posicionado. Primeiro, a fé na obra consumada na cruz garante a salvação da pena do pecado (2 Tm 1.9). Segundo, andando pela fé no Senhor, temos salvação do poder do pecado (Fp 2.12-13). E, finalmente, podemos aguardar nossa futura salvação da presença do pecado : “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.13).

Espada

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12).
Na cintura de cada soldado romano estava pendurada sua arma principal: o gladius. Esta era uma espada relativamente curta, afiada nos dois gumes. Em mãos de guerreiros treinados, ela era mortal. A espada dos crentes é a Bíblia. De fato, foi apenas a Palavra que Jesus usou com eficiência contra o ataque de Satanás no deserto (Mt 4.1-11).
Quando estudada e aplicada, a Palavra de Deus é a defesa máxima contra os artifícios do Maligno. Falar a Palavra com autoridade é a melhor ofensiva para arrasar a fortaleza de Satanás (Is 49.2).

Ataques Sorrateiros

Satanás procura nos intimidar com o seu rosnar feroz. Precisamos ter a perspectiva de Cristo no conflito.
Os leões de Tsavo espreitavam e aproximavam-se silenciosamente de suas vítimas. O terrível rugido vinha depois que suas vítimas estavam acuadas ou mortas. Satanás também é persistente e silencioso. Ele não alerta os filhos de Deus a respeito da sua presença. Porém, quando consegue enganar sua vítima, através do pecado, ele ruge com satisfação. Portanto, um cristão que se protege adequadamente deve estar alerta em todo o tempo “com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18).

A Perspectiva Correta

Os leões de Tsavo eram aterrorizantes. Do nariz à cauda eles mediam cerca de três metros. Patterson escreveu que eles tentavam assustá-lo com um olhar irritado em sua direção, mostrando seus dentes e rangendo-os furiosamente.
Satanás também procura nos intimidar com o seu rosnar feroz. Precisamos ter a perspectiva de Cristo no conflito. Satanás não é igual a Deus. Como é um ser criado, ele tem limitações (Ez 28.12-19). Ele é poderoso, mas não é todo-poderoso (Ap 12.8; 20.2). Ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo (não é onipresente). Em vez disso, ele governa sobre demônios subordinados que andam pelo mundo, obedecendo às suas ordens (Mt 12.24; Ef 6.12). Ele também não tem a onisciência de Deus (1 Cr 28.9). Ele não sabe de todas as coisas.
Conseqüentemente, embora o Diabo seja um antagonista furioso, ele não deve nos aterrorizar. Ele não é páreo para Cristo, que já providenciou nossa vitória através do poder do Seu sangue derramado (Ap 12.11). Somente em Cristo há libertação do poder de Satanás (At 26.18; Cl 1.13). Cristo, que vive naqueles que verdadeiramente nasceram de novo, é maior que Satanás (1 Jo 4.4).
John Henry Patterson finalmente acabou com seus leões. Eles estão em exibição no Field Museum em Chicago, Illinois (EUA). Ainda agora, ao olhar para eles, seus olhos escuros e inertes evocam terror. Contudo, eles estão mortos e não podem ferir ninguém. Um dia o Diabo será lançado na escuridão eterna do Lago de Fogo, para nunca mais atormentar os fiéis (Ap 20.10).
Até aquele dia, não importa quantas dificuldades e provações passemos na vida, podemos estar seguros de que temos a armadura necessária para enfrentar o “leão” e para sermos mais que vencedores. Além do mais, nada pode nos separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 8.37-39). (Peter Colón - Israel My Glory -http://www.chamada.com.br)

Notas:

  1. J. H. Patterson, The Man-Eaters of Tsavo and Other East African Adventures.
  2. Ibid.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Mais um apócrifo para fins de pesquisa

A Infância de Cristo Segundo Tiago


 
INTRODUÇÃO
Apresentamos, numa versão modernizada, textos considerados apócrifos e que trazem importantes informações a respeito da vida de Cristo, preenchendo lacunas até então criadas pelos Evangelhos constantes da Bíblia.
Estes textos retratam os acontecimentos que precederam o nascimento de Cristo, contando a história de Maria e da natividade, além da história da infância do Senhor Jesus, no Evangelho de Tomé. Há também excertos do Livro da Infância do Salvador, onde a vida de Jesus, dos cinco aos doze anos, é retratada.
Vale lembrar que numa outra obra desta coleção, o Evangelho de São Pedro, a Infância de Cristo é apresentada na sua íntegra, mostrando fatos e passagens importantes da vida do Senhor Jesus, nos seus primeiros anos.
Os textos chamados de apócrifos são aqueles não incluídos pela Igreja no Cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas.
Como foi feita essa seleção, até hoje a Igreja não explicou adequadamente. Se inspirados ou não, são relatos dos primeiros tempos do Cristianismo, importantes para quem deseja conhecer a fundo essa religião.
A NATIVIDADE
Este livro, apesar de conhecido como o Evangelho de Tiago ou Proto-Evangelho de Tiago, tem sua autoria desconhecida. Publicado em fins do século XVI, não se sabe exatamente ainda qual a época em que foi escrito, mas os maiores estudiosos dos Livros Apócrifos afirmam que é anterior aos Quatro Evangelhos Canônicos, servindo, em muitos aspectos, como base para estes.
O Proto-Evangelho de Tiago conta a vida de Maria, seu nascimento de Ana e Joaquim, considerados estéreis, de como foi sua educação no Templo até a sua puberdade, como se deu a escolha de seu futuro esposo, José, velho, viúvo e pai de seis filhos: Judas, Josetos, Tiago, Simão, Lígia e Lídia. Continua, narrando a concepção e a virgindade, que se manteve após dar à luz o Salvador, numa caverna. Fala da estrela misteriosa e radiante, que guiou os magos até a caverna e da nuvem de luz que pairou sobre o local, na hora em que o Senhor Jesus nascia.
Narra, também, a participação da parteira que testemunhou a virgindade de Maria, após o nascimento do Senhor E cita o testemunho de uma parteira que constatou a virgindade de Maria após dar à luz.
PROTO-EVANGELHO DE TIAGO
i
Segundo narram as memórias das doze tribos de Israel, havia um homem muito rico, de nome Joaquim, que fazia suas oferendas em quantidade dobrada, dizendo:
- O que sobra, ofereça-o para todo o povoado e o devido na expiação de meus pecados será para o Senhor, a fim de ganhar-lhe as boas graças.
Chegou a grande festa do Senhor, na qual os filhos de Israel devem oferecer seus donativos. Rubem se pôs à frente de Joaquim, dizendo-lhe:
- Não te é lícito oferecer tuas dádivas, enquanto não tiveres gerado um rebento em Israel.
Joaquim mortificou-se tanto que se dirigiu aos arquivos de Israel, com intenção de consultar o censo genealógico e verificar se, porventura, teria sido ele o único que não havia tido prosperidade em seu povoado.
Examinando os pergaminhos, constatou que todos os justos haviam gerado descendentes. Lembrou-se, por exemplo, de como o Senhor deu Isaac ao patriarca Abraão, em seus derradeiros anos de vida.
Joaquim ficou muito atormentado, não procurou sua mulher e se retirou para o deserto. Ali armou sua tenda e jejuou por quarenta dias e quarenta noites, dizendo:
- Não sairei daqui nem sequer para comer ou beber, até que não me visite o Senhor meu Deus. Que minhas preces me sirvam de comida e de bebida.
II
Ana lamentava-se e gemia dolorosamente, dizendo:
- Chorarei minha viuvez e minha esterilidade.
Chegou, porém, a grande festa do Senhor e disse-lhe Judite, sua criada:
- Até quando vais humilhar tua alma? Já é chegada a festa maior e não te é lícito entristecer-te. Toma este lenço de cabeça, que me foi dado pela dona da tecelagem, já que não posso cingir-me com ele por ser eu de condição servil e levar ele ao selo real.
Disse Ana:
- Afasta-te de mim, pois que não fiz tal coisa e, além do mais, o Senhor já me humilhou em demasia para que eu o use. A não ser que algum malfeitor o haja dado e tenhas vindo para fazer-me também cúmplice do pecado.
Replicou Judite:
- Que motivo tenho eu para maldizer-te, se o Senhor já te amaldiçoou não te dando fruto de Israel?
Ana, ainda que profundamente triste, despiu suas vestes de luto, cingiu-se com um toucado, vestiu suas roupas de bodas e desceu, na hora nona, ao jardim para passear. Ali viu um loureiro, assentou-se à sua sombra e orou ao Senhor, dizendo:
- Ó Deus de nossos pais! Ouve-me e bendize-me da maneira que bendisseste o ventre de Sara, dando-lhe como filho Isaac!
III
Tendo elevado seus olhos aos céus, viu um ninho de passarinhos no loureiro e novamente lamentou-se dizendo:
- Ai de mim! Por que nasci e em que hora fui concebida? Vim ao mundo para ser como terra maldita entre os filhos de Israel. Estes me cumularam de injúrias e me escorraçaram do templo de Deus. Ai de mim! A quem me assemelho eu? Não às aves do céu, pois elas são fecundas em tua presença, Senhor. Ai de mim! A quem me pareço eu? Não às bestas da terra, pois que até esses animais irracionais são prolíficos ante teus olhos, Senhor. Ai de mim! A quem me posso comparar? Nem sequer a estas águas, porque até elas são férteis diante de ti, Senhor. Ai de mim! A quem me igualo eu? Nem sequer a esta terra, porque ela também é fecundada, dando seus frutos na ocasião própria e te bendiz, Senhor.
IV
Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe:
- Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo.
Ana respondeu:
- Viva o Senhor meu Deus, que, se chegar a ter algum fruto de bênção, seja menino ou menina, levá-lo-ei como oferenda ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida.
Então vieram a ela dois mensageiros com este recado:
- Joaquim, teu marido, está de volta com seus rebanhos, pois que um anjo de Deus desceu até ele e lhe disse que o Senhor escutou seus rogos e que Ana, sua mulher, vai conceber em seu ventre.
Tendo saído Joaquim, mandou que seus pastores lhe trouxessem dez ovelhas sem mancha.
Disse ele:
- Estas serão para o Senhor.
Mandou, então separar doze novilhas de leite, dizendo:
- Estas serão para os sacerdotes e para o sinédrio.
Finalmente, mandou apartar cem cabritos para todo o povoado.
Ao chegar Joaquim com seus rebanhos, estava Ana à porta e, ao vê-lo chegar, pôs-se a correr e atirou-se ao seu pescoço dizendo:
- Agora vejo que Deus me bendisse copiosamente, pois, sendo viúva, deixo de sê-lo e, sendo estéril, vou conceber em meu ventre.
Então Joaquim repousou naquele dia em sua casa.
V
No dia seguinte, ao ir oferecer sua dádivas ao Senhor, dizia para consigo mesmo:
- Saberei se Deus me vai ser favorável se eu chegar a ver o éfode do sacerdote.
Ao oferecer o sacrifício, observou o éfode do sacerdote, quando este se acercava do altar de Deus, e, não encontrando pecado algum em sua consciência, disse:
- Agora vejo que o Senhor houve por bem perdoar todos os meus pecados.
Desceu Joaquim justificado do templo e foi para casa. O tempo de Ana cumpriu-se e no nono mês deu à luz.
Perguntou à parteira:
- A quem dei à luz?
A parteira respondeu:
- Uma menina.
Então Ana exclamou:
- Minha alma foi enaltecida – e reclinou a menina no berço.
Ao fim do tempo marcado pela lei, Ana purificou-se, deu o peito à menina e pôs-lhe o nome de Maria.
VI
Dia a dia a menina ia robustecendo-se. Ao chegar aos seis meses, sua mãe deixou-a só no chão, para ver se sustentava-se de pé. Ela, depois de andar sete passos, voltou ao regaço de sua mãe. Esta levantou-se, dizendo:
- Salve o Senhor! Não andarás mais por este solo, até que te leve ao templo do Senhor.
Fez-lhe um oratório em sua casa e não consentiu que nenhuma coisa vulgar ou impura passasse por suas mãos. Chamou, além disso, umas donzelas hebréias, todas virgens, para que a entretivessem.
Quando a menina completou um ano, Joaquim deu um grande banquete, para o qual convidou os sacerdotes, os escribas, o sinédrio e todo o povo de Israel. Apresentou a menina aos sacerdotes, que a abençoaram assim:
- Ó Deus de nossos pais, bendiz esta menina e dá-lhe um nome glorioso e eterno por todas as gerações.
Ao que todo o povo respondeu:
- Assim seja, assim seja! Amém!
Apresentou-a também Joaquim aos príncipes e aos sacerdotes e estes a abençoaram assim:
- Ó Deus Altíssimo, põe teus olhos nesta menina e outorga-lhe uma bênção perfeita, dessas que excluem as ulteriores.
Sua mãe levou-a ao oratório de sua casa e deu-lhe o peito. Compôs, então, um hino ao Senhor Deus, dizendo:
- Entoarei um cântico ao Senhor meu Deus, porque me visitaste, afastaste de mim o opróbrio de meus inimigos e me deste um fruto santo, que é único e múltiplo a seus olhos. Quem dará aos filhos de Rubem a notícia de que Ana está amamentando? Ouvi, ouvi, ó Doze Tribos de Israel: Ana está amamentando!
Tendo deixado a menina para que repousasse na câmara onde havia o oratório, saiu e pôs-se a servir os comensais. Estes, uma vez terminada a ceia, saíram regozijando-se e louvando ao Deus de Israel.
VII
Entretanto, os meses iam-se passando para a menina. Ao fazer dois anos, disse Joaquim a Ana:
- Levemo-la ao templo do Senhor para cumprir a promessa que fizemos, para que Senhor não a reclame e nossa oferenda se torne inaceitável a seus olhos.
Ana respondeu:
- Esperamos, todavia, até que complete três anos, para que a menina não tenha saudades de nós.
Joaquim respondeu:
- Esperaremos.
Ao chegar aos três anos, disse Joaquim:
- Chama as donzelas hebréias que não têm mancha e que tomem, duas a duas, uma candeia acesa e a acompanhem, para que a menina não olhe para trás e seu coração seja cativado por alguma coisa fora do templo de Deus.
Assim fizeram enquanto iam subindo ao templo de Deus. Lá recebeu-a o sacerdote, o qual, depois de tê-la beijado, abençoou-a e exclamou:
- O Senhor engrandeceu teu nome diante de todas as gerações, pois que, no final dos tempos, manifestará em ti sua redenção aos filhos de Israel.
Fê-la sentar-se no terceiro degrau do altar. O Senhor derramou graças sobre a menina, que dançou cativando toda a casa de Israel.
VIII
Saíram, então, seus pais, cheios de admiração, louvando ao Senhor Deus porque a menina não havia olhado para trás. Maria permaneceu no templo como uma pombinha, recebendo alimento pelas mãos de um anjo.
Ao completar doze anos, os sacerdotes reuniram-se para deliberar, dizendo:
- Eis que Maria cumpriu doze anos no templo do Senhor. Que faremos para que ela não chegue a manchar o santuário?
Disseram ao sumo sacerdote:
- Tu que tens o altar ao teu cargo, entra e ora por ela. O que o Senhor te disser, isso será o que haveremos de fazer.
O sumo sacerdote, cingindo-se com o manto das doze sinetas, entrou no Santo dos Santos e orou por ela. Eis que um anjo do Senhor apareceu, dizendo-lhe:
- Zacarias, Zacarias, sai e reúne a todos os viúvos do povoado. Que cada um venha com um bastão e o daquele em que o Senhor fizer um sinal singular, deste será ela a esposa.
Saíram os arautos por toda a região da Judéia e, ao soar a trombeta do Senhor, todos acudiram.
IX
José, deixando de lado sua acha, uniu-se a eles. Uma vez que se juntaram todos, tomaram cada qual seu bastão e puseram-se a caminho, à procura do sumo sacerdote. Este tomou todos os bastões, entrou no templo e pôs-se a orar. Terminadas as suas preces, tomou de novo os bastões e os entregou, mas em nenhum deles apareceu sinal algum. Porém, ao pegar José o último, eis que uma pomba saiu dele e se pôs a voar sobre sua cabeça. Então o sacerdote disse:
- A ti coube a sorte de receber sob tua custódia a Virgem do Senhor.
José replicou:
- Tenho filhos e sou velho, enquanto que ela é uma menina. Não gostaria de ser objeto de zombaria por parte dos filhos de Israel.
Então tornou o sacerdote:
- Teme ao Senhor teu Deus e tem presente o que fez Ele com Datan, Abiron e Corê, de como abriu-se a terra e foram sepultados por sua rebelião. Teme agora tu também, José, para que não aconteça o mesmo a tua casa.
Ele, cheio de temor, recebeu-a sob proteção. Depois, disse-lhe:
- Tomei-te do templo. Deixo-te agora em minha casa e vou continuar minhas construções. Logo voltarei. O Senhor te guardará.
X
Os sacerdotes, então, reuniram-se e concordaram em fazer um véu para o templo do Senhor.
O sumo sacerdote disse:
- Chama algumas donzelas sem mancha, da tribo de Davi.
Os ministros se foram e, depois de terem procurado, encontraram sete virgens. Então o sacerdote lembrou-se de Maria, a jovenzinha que, sendo de estirpe davídica, se conservava imaculada aos olhos de Deus. Os emissários foram buscá-la.
Depois de as terem introduzido no templo, disse o sacerdote:
- Vejamos qual há de bordar o ouro, o amianto, o linho, a seda, o zircão, o escarlate e a verdadeira púrpura.
O escarlate e a verdadeira púrpura couberam a Maria que, tomando-as, foi para casa.
Naquela época, Zacarias ficou mudo, sendo substituído por Samuel, até quando pôde falar novamente. Maria tomou em suas mãos o escarlate e pôs-se a tecê-lo.
XI
Certo dia, pegou Maria um cântaro e foi enchê-lo de água. Eis que ouviu uma voz que lhe dizia:
- Deus te salve, cheia de graça! O Senhor está contigo, bendita és entre as mulheres!
Ela olhou a sua volta, à direita, à esquerda, para ver de onde vinha aquela voz. Tremendo, voltou para casa, deixou a ânfora, pegou a púrpura, sentou-se no divã e pôs-se a tecê-la. Logo um anjo do Senhor apresentou-se diante dela, dizendo:
- Não temas, Maria, pois alcançaste graça ante o Senhor onipotente e vais conceber por Sua palavra!
Ela, ao ouví-lo, ficou perplexa e disse consigo mesma:
- Deverei eu conceber por virtude de Deus vivo e haverei de dar à luz como as demais mulheres?
Ao que lhe respondeu o anjo:
- Não será assim, Maria, pois que a virtude do Senhor te cobrirá com sua sombra. Depois, o fruto santo que deverá nascer de ti será chamado de Filho do Altíssimo. Chamar-lhe-ás Jesus, pois Ele salvará seu povo de suas iniqüidades. Então, disse Maria:
- Eis aqui a escrava do Senhor em Sua presença. Que isto aconteça a mim conforme Sua palavra.
XII
Concluído seu trabalho com a púrpura e o escarlate, levou-o ao sacerdote. Este a abençoou dizendo:
- Maria, o Senhor enaltecer seu nome e serás bendita entre todas as gerações da terra.
Cheia de alegria, Maria foi à casa de sua parente Isabel. Chamou-a da porta e, ao ouví-la, Isabel largou o escarlate, correu para a porta, abriu-a e, vendo Maria, louvou-a dizendo:
- Que fiz eu para que a mãe do meu Senhor venha a minha casa? Pois saiba que o fruto que carrego em meu ventre se pôs a pular dentro de mim, como que para bendizer-se.
Maria havia se esquecido dos mistérios que o anjo Gabriel lhe comunicara, elevou os olhos aos céus e disse:
- Quem sou eu, Senhor, para que todas as gerações me bendigam?
Passou três meses em casa de Isabel. Dia a dia seu ventre aumentava e, cheia de temor, pôs-se a caminho de casa e escondia-se dos filhos de Israel. Quando sucederam essas coisas, ela contava dezesseis anos.
XIII
Ao chegar Maria ao sexto mês de gravidez, voltou José de suas construções e, ao entrar em casa, deu-se conta de que ela estava grávida. Então, feriu seu próprio rosto, jogou-se no chão sobre uma manta e chorou amargamente, dizendo:
- Como é que me vou apresentar agora diante do meu Senhor? E que oração direi eu agora por esta donzela, pois que a recebi virgem do templo do Senhor e não a soube guardar? Será que a história de Adão se repetiu comigo? Assim como no instante em que ela estava glorificando a Deus veio a serpente e, ao encontrar Eva sozinha, a enganou, o mesmo me aconteceu.
Levantando-se, José chamou Maria e disse-lhe:
- Predileta como eras de Deus, como foste capaz de fazer isso? Acaso te esqueceste do Senhor teu Deus? Com pudeste vilipendiar tua alma, tu que te criaste no Santo dos Santos e recebeste alimento das mãos de um anjo?
Ela chorou amargamente dizendo:
- Sou pura e não conheço varão algum.
Replicou José:
- De onde, pois, provém o que carregas no seio?
Ao que Maria respondeu:
- Pelo Senhor, meu Deus, eu juro que não sei como aconteceu.
XIV
José encheu-se de temor, retirou-se da presença de Maria e pôs-se a pensar sobre o que faria com ela. Dizia consigo próprio:
- Se escondo seu erro, contrario a lei do Senhor. Se a denuncio ao povo de Israel, temo que o que acontecer a ela se deva a uma intervenção dos anjos e venha a entregar à morte uma inocente. Como deverei proceder, pois? Mandá-la embora às escondidas.
Enquanto isso, caiu a noite. Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo-lhe:
- Não temas por esta donzela, pois o que ela carrega em suas entranhas é fruto do Espírito Santo. Dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, pois que ele há de salvar seu povo dos pecados.
Ao despertar, José levantou-se, glorificou a Deus de Israel por haver-lhe concedido tal graça e continuou guardando Maria.
XV
Por essa ocasião, veio à casa de José um escriba chamado Anás, que lhe disse:
- Por que não compareceste à nossa reunião?
Respondeu-lhe José:
- Estava cansado da caminhada e decidi repousar este primeiro dia.
Ao voltar-se, Anás deu-se conta da gravidez de Maria.
Então, correu ao sacerdote, dizendo-lhe:
- Esse José, por quem respondes, cometeu uma falta grave.
- Que queres dizer com isso? – perguntou o sacerdote. Ao que respondeu Anás:
- Pois violou aquela virgem que recebeu do templo de Deus, com fraude de seu casamento e sem manifestá-lo ao povo de Israel.
Disse o sacerdote:
- Estás certo de que foi José que fez tal coisa?
Replicou Anás:
- Envia uma comissão e te certificarás de que a donzela está realmente grávida.
Saíram os emissário e encontraram-na tal qual havia dito Anás. Por isso levaram-na, juntamente com José, ante o tribunal.
O sacerdote iniciou, dizendo:
- Maria, como fizeste tal coisa? Que te levou a vilipendiar tua alma e esquecer-te do Senhor teu Deus? Tu que te criaste no Santo dos Santos, que recebias alimento das mãos de um anjo, que escutaste os hinos e que dançavas na presença de Deus? Como fizeste isso?
Ela se pôs a chorar amargamente, dizendo:
- Juro pelo Senhor meu Deus que estou pura em sua presença e que não conheci varão.
Então o sacerdote dirigiu-se a José, perguntando-lhe:
- Por que fizeste isso?
Replicou José:
- Juro pelo Senhor meu Deus, que me encontro puro com relação a ela.
Acrescentou o sacerdote:
- Não jures em falso! Dize a verdade! Usaste fraudulentamente o matrimônio e não o deste a conhecer ao povo de Israel. Não abaixaste tua cabeça sob a mão poderosa de Deus, por quem sua descendência havia sido bendita.
José guardou silêncio.
XVI
- Devolve, pois – continuou o sacerdote, – a virgem que recebeste do templo do Senhor.
José ficou com os olhos marejados em lágrimas. Acrescentou ainda o sacerdote:
- Farei com que bebais da água da prova do Senhor e ela vos mostrará, diante de vossos próprios olhos, vossos pecados.
Tomando da água, fez José bebê-la, enviando-o em seguida à montanha, de onde voltou são e salvo. Fez o mesmo com Maria, enviando-a também à montanha, mas ela voltou sã e salva.
Toda a cidade encheu-se de admiração ao ver que não havia pecado neles.
Disse o sacerdote:
- Posto que o Senhor não declarou vosso pecado, tampouco irei condenar-vos.
Então despediu-os. Tomando Maria, José voltou para casa cheio de alegria e louvado ao Deus de Israel.
XVII
Veio uma ordem do imperador Augusto para que se fizesse o censo de todos os habitantes de Belém da Judéia.
Disse José:
- A meus filhos posso recensear, mas que farei desta donzela? Como vou incluí-la no censo? Como minha esposa? Envergonhou-me. Como minha filha? Mas já sabem todos os filhos de Israel que não é! Este é o dia do Senhor, que se faça a sua vontade.
Selando sua asna, fez com que Maria se acomodasse sobre ela. Enquanto um de seus filhos ia à frente, puxando o animal pelo cabresto, José os acompanhava. Quando estavam a três milhas de distância de Belém, José virou-se para Maria e viu que ela estava triste.
Disse consigo mesmo:
- Deve ser a gravidez que lhe causa incômodo.
Ao voltar-se novamente, encontrou-a sorrindo e indagou-lhe:
- Maria, que acontece, pois que algumas vezes te vejo sorridente e outras triste?
Ela lhe disse:
- É que se apresentam dois povos diante de meus olhos: um que chora e se aflige e outro que se alegra e se regozija.
Ao chegar à metade do caminho, disse Maria a José:
- Desça-me, porque o fruto de minhas entranhas luta por vir à luz.
Ele a ajudou a apear da asna, dizendo-lhe:
- Aonde poderia eu levar-te para resguardar teu pudor, já que estamos em campo aberto?
XVIII
Encontrando uma caverna, levou-a para dentro e, havendo deixado seus filhos com ela, foi buscar uma parteira na região de Belém.
Eis que José encontrou-se andando, mas não podia avançar. Ao levantar seus olhos para o espaço, pareceu lhe ver como se o ar estivesse estremecido de assombro. Quando fixou vista no firmamento, encontrou-o estático e os pássaros do céu, imóveis. Ao dirigir seu olhar à terra, viu um recipiente no solo e uns trabalhadores sentados em atitude de comer, com suas mãos na vasilha. Os que pareciam comer, na realidade não mastigavam, e os que estavam em atitude de pegar a comida, tampouco a tiravam do prato. Finalmente, os que pareciam levar os manjares à boca, não o faziam, ao contrário, tinham seus rostos voltados para cima.
Também havia umas ovelhas que estavam sendo tangidas, mas não davam um passo. Estavam paradas. O pastor levantou sua destra para bater-lhes com um cajado, mas parou sua mão no ar.
Ao dirigir seu olhar à corrente do rio, viu como uns cabritinhos punham nela seus focinhos, mas não bebiam. Em uma palavra, todas as coisas estavam afastadas, por uns instantes, de seu curso normal.
XIX
Então uma mulher que descia da montanha disse-lhe:
- Aonde vais?
Ao que ele respondeu:
- Ando procurando uma parteira hebréia.
Ela replicou:
- Mas és de Israel?
Ele respondeu:
- Sim.
- E quem é a que está dando à luz na caverna?
- É minha esposa.
- Então, não é tua mulher?
Ele respondeu:
- É Maria, a que se criou no templo do Senhor, e ainda que me tivesse sido dada por mulher, não o é, pois que concebeu por virtude do Espírito Santo.
Insistiu a parteira:
- Isso é verdade?
José respondeu:
- Vem e verás.
Então a parteira se pôs a caminho junto com ele. Ao chegar à gruta, pararam, e eis que esta estava sombreada por uma nuvem luminosa.
Exclamou a parteira:
- Minha alma foi engrandecida, porque meus olhos viram coisas incríveis, pois que nasceu a salvação para Israel. De repente, a nuvem começou a sair da gruta e dentro brilhou uma luz tão grande que seus olhos não podiam resistir. Esta, por um momento, começou a diminuir tanto que deu para ver o menino que estava tomando o peito da mãe, Maria. A parteira então deu um grito, dizendo:
- Grande é para mim o dia de hoje, já que pude ver com meus próprios olhos um novo milagre.
Ao sair a parteira da gruta, veio ao seu encontro Salomé.
- Salomé, Salomé! – exclamou. – Tenho de te contar uma maravilha nunca vista. Uma virgem deu à luz; coisa que, como sabes, não permite a natureza humana.
Salomé replicou:
- Pelo Senhor, meus Deus, não acreditarei em tal coisa, se não me for dado tocar com os dedos e examinar sua natureza.
XX
Havendo entrado a parteira, disse a Maria:
- Prepara-te, porque há entre nós uma grande querela em relação a ti.
Salomé, pois, introduziu seu dedo em sua natureza, mas, de repente, deu um grito, dizendo:
- Ai de mim! Minha maldade e minha incredulidade é que têm a culpa! Por descrer do Deus vivo, desprende-se de meu corpo minha mão carbonizada.
Dobrou os joelhos diante do Senhor, dizendo:
- Ó Deus de nossos pais! Lembra-te de mim, porque sou descendente de Abraão, Isaac e Jacó! Não faças de mim um exemplo para os filhos de Israel! Devolve-me curada, porém, aos pobres, pois que tu sabes, Senhor, que em teu nome exercia minhas curas, recebendo de ti meu salário!
Apareceu um anjo do céu, dizendo-lhe:
- Salomé, Salomé, Deus escutou-te. Aproxima tua mão do menino, toma-o e haverá para ti alegria e prazer.
Acercou-se Salomé e o tomou, dizendo:
- Adorar-te-ei, porque nasceste para ser o grande Rei de Israel.
De repente, sentiu-se curada e saiu em paz da gruta. Nisso ouviu uma voz que dizia:
- Salomé, Salomé, não contes as maravilhas que viste até estar o menino em Jerusalém.
XXI
José dispôs-se a partir para Judéia. Por essa ocasião, sobreveio um grande tumulto em Belém, pois vieram um magos dizendo:
- Aonde está o recém-nascido Rei dos Judeus, pois vimos sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo?
Herodes, ao ouvir isso, perturbou-se. Enviou seus emissários aos magos e convocou os príncipes e os sacerdotes, fazendo-lhes esta pergunta:
- Que está escrito em relação ao Messias? Aonde ele vai nascer?
Eles responderam:
- Em Belém da Judéia, segundo rezam as escrituras. Com isso, despachou-os e interrogou os magos com estas palavras:
- Qual é o sinal que vistes em relação ao nascimento desse rei?
Responderam-lhes os magos:
- Vimos um astro muito grande, que brilhava entre as demais estrelas e as eclipsava, fazendo-as desaparecer. Nisso soubemos que a Israel havia nascido um rei e viemos com a intenção de adorá-lo.
Replicou Herodes:
- Ide e buscai-o, para que também possa eu ir adorá-lo!
Naquele instante, a estrela que haviam visto no Oriente voltou novamente a guiá-los, até que chegaram à caverna e pousou sobre a entrada dela. Vieram, então, os magos a ter com o Menino e Sua mãe, Maria, e tiraram oferendas de seus cofres: ouro, incenso e mirra.
Depois, avisados por um anjo para que não entrassem na Judéia, voltaram a suas terras por outro caminho.
XXII
Ao dar-se conta Herodes de que havia sido enganado, encolerizou-se e enviou seus sicários, dando-lhes a missão de assassinar todos os meninos de menos de dois anos.
Quando chegou até Maria a notícia da matança das crianças, encheu-se de temor e, envolvendo seu filho em fraldas, colocou-o numa manjedoura.
Quando Isabel inteirou-se de que também buscavam a seu filho João, pegou-o e levou-o a uma montanha. Pôs-se a ver onde haveria de escondê-lo, mas não havia um lugar bom para isso. Entre soluços, exclamou em voz alta:
- Ó Montanha de Deus, recebe em teu seio a mãe com seu filho, pois que não posso subir mais alto.
Nesse instante, abriu a montanha suas entranhas para recebê-los. Acompanhou-os uma grande luz, pois estava com ele um anjo de Deus para guardá-los.
XXIII
Herodes prosseguia na busca de João e enviou seus emissários a Zacarias para que lhe dissessem:
- Aonde escondeste teu filho?
Ele respondeu desta maneira:
- Eu me ocupo do serviço de Deus e me encontro sempre no templo. Não sei onde está meu filho.
Os emissários informaram a Herodes tudo o que se passara e ele encolerizou-se muito, dizendo consigo mesmo:
- Deve ser seu filho que vai reinar em Israel.
Enviou, então, um outro recado, dizendo-lhe:
- Diga-nos a verdade sobre onde está teu filho, porque do contrário bem sabes que teu sangue está sob minhas mãos.
Zacarias respondeu:
- Serei mártir do Senhor, se te atreveres a derramar meu sangue, porque minha alma será recolhida pelo Senhor, ao ser segada uma vida inocente no vestíbulo do santuário. Ao romper da aurora, foi assassinado Zacarias, sem que os filhos de Israel se dessem conta desse crime.
XXIV
Os sacerdotes se reuniram à hora da saudação, mas Zacarias não saiu a seu encontro, como de costume, para abençoá-los. Puseram-se a esperá-lo para saudá-lo na oração e para glorificar o Altíssimo.
Ante sua demora, começaram a ter medo. Tomando ânimo, um deles entrou, viu ao lado do altar sangue coagulado e ouviu uma voz que dizia:
- Zacarias foi morto e não se limpará o seu sangue até que chegue o vingador.
Ao ouvir a voz, encheu-se de temor e saiu para informar os sacerdotes que, tomando coragem, entraram e testemunharam o ocorrido. Então, os frisos do templo rangeram e eles rasgaram suas vestes de alto a baixo.
Não encontraram o corpo, somente a poça de sangue coagulado. Cheios de temor, saíram para informar a todo o povo que Zacarias havia sido assassinado. A notícia correu em todas as tribos de Israel, que o choraram e guardaram luto por três dias e três noites.
Concluído esse tempo, reuniram-se os sacerdotes para deliberar sobre quem iriam pôr em seu lugar. Recaiu a sorte sobre Simeão, pois, pelo Espírito Santo, havia sido assegurado de que não veria a morte até que lhe fosse dado contemplar o Messias Encarnado.
XXV
Eu, Tiago, escrevi esta história. Ao levantar-se um grande tumulto em Jerusalém, por ocasião da morte de Herodes, retirei-me ao deserto até que cessasse o motim, glorificando ao Senhor meu Deus, que me concedeu a graça e a sabedoria necessárias para compor esta narração.
Que a graça esteja com todos aqueles que temem a Nosso Senhor Jesus Cristo, para quem deve ser a glória. http://www.gnosisonline.org/teologia-gnostica/a-infancia-de-cristo-segundo-tiago/

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Evangelho Apócrifo de Tomé

Evangelho Apócrifo de Tomé! O que sao evangelhos Apócrifos? Os evangelhos Apócrifos sao aqueles que nao foram aceitos para entrar no Canon da Bíblia, ou seja nao sao reconhecidos pelo Vaticano como livros inspirados pelo Esirito Santo, por isso nao reconhecidos como livros sagrados, nao é reconhecida autenticidade,  e nao estao na Bíblia. Há muitos evangelhos nessa situacao, mais de 30. Creio que o que está na Bíblia é o que foi a vontade de Deus para compo-la, porém, nada nos impede de aprender mais sobre a história do Cristianismo, quando estudei em um seminário cristao eu nao fazia a mínima idéia que existiam Evangelhos Apócrifos, tomei conhecimento disso e muitas coisas sobre outras culturas e religioes, foi e é bom aprender, nao podemos evangelisar sem conhecer a realidade dos povos aos quais queremos alcancar, pois só assim saberemos o que está errado e como poderemos convence-los disso e comprovar nossas afirmacoes, sem saber e sem poder argumentar sobre o motivo nao da pra convencer ninguém. Evangelisar nao é só chegar e jogar um monte de informacao nova em cima de uma pessoa!! É preciso compreende-la em todo o seu atual "mundo" para poder individualizar cada um, isso é justica! e assim acompanhar os seus primeiros passos seguindo os ensinamentos de Jesus e Deus. Estou expondo toda a verdade inegável que existe e todos estao preparados para receber, quando a fé é verdadeira ela nao sera destruída pela verdade mas sim edificada e alimentada...Isso é um estudo histórico. Isso é estudado em cursos de Teologia crista.


O Evangelho de Tome

O Evangelho de Tomé é um dos mais de 50 textos da Biblioteca de Nag-Hammadi, encontrada numa caverna no Egito em 1947. Este Evangelho, escrito em copta, a língua do Alto Egito no início de nossa era, é uma tradução de um original grego, provavelmente escrito em meados do primeiro século. Portanto, ele é um dos documentos mais antigos de nossa tradição cristã, já que os quatro Evangelhos incluídos na Bíblia foram escritos provavelmente entre os anos 80 e 120 de nossa era.
O Evangelho de Tomé é uma coleção de ditados de Jesus, que guarda certas semelhanças com o assim chamado Evangelho de “Q”, que os eruditos bíblicos acreditam teria sido a fonte de parte dos ditados incluídos em Mateus e Lucas. Os estudiosos acreditam que as versões dos ditados de Jesus encontradas em Tomé seriam, em geral, versões mais originais do que a dos evangelhos canônicos, que teriam sofrido modificações e editorações ao longo dos séculos.
Sua autoria é atribuída a Tomé, que é chamado logo no início do texto de “irmão gêmeo” de Jesus. Este parentesco deve ser entendido no seu sentido esotérico. Tomé seria um discípulo que havia alcançado um estado de realização interior que o tornava um gêmeo espiritual do Salvador. O caráter esotérico do Evangelho é reiterado no primeiro versículo, em que é dito que quem descobrir o significado dos ensinamentos de Jesus ali contidos, não provará a morte. Essa era a postura gnóstica daquele tempo e que continua válida em nossos dias. Como os ensinamentos de Jesus eram velados em linguagem simbólica, para descobrir a sua interpretação o discípulo teria que alcançar um elevado estado de consciência, no qual recebia a Gnosis, ou seja, o conhecimento direto da verdade, uma verdadeira revelação espiritual, que conferia um estado de unidade com o Todo e a experiência da verdadeira natureza do ser, que é a alma. Como a alma é imortal, quem se identifica com a alma não experimenta a morte, ainda que inevitavelmente seu corpo físico, a vestimenta de carne da alma, venha a perecer.
O estudo meditativo dos ensinamentos internos de Jesus contidos no Evangelho de Tomé, usando as quatro chaves conhecidas para a interpretação da simbologia esotérica, pode ser altamente revelador para todo cristão desejoso de conhecer os ensinamentos esotéricos do Mestre.

O Evangelho de Tomé

(126)(1)Estes são os ensinamentos (logia) ocultos expostos por Jesus, o vivo, que Judas Tomé, o gêmeo, escreveu.
(1) E ele disse: “Quem descobrir o significado interior destes ensinamentos não provará a morte.”
(2) Jesus disse: “Aquele que busca continue buscando até encontrar. Quando encontrar, ele se perturbará. Ao se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo”.
(3) Jesus disse: “Se aqueles que vos guiam disserem, ‘Olhem, o reino está no céu’, então, os pássaros do céu vos precederão, se vos disserem que está no mar, então, os peixes vos precederão. Pois bem, o reino está dentro de vós, e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, então, sereis conhecidos e compreendereis que sois filhos do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza.”
(4) Jesus disse: “O homem idoso não hesitará em perguntar a uma criancinha de sete dias sobre o lugar da vida, e ele viverá. Pois muitos dos primeiros serão os últimos e se tornarão um só.”
(5) Jesus disse: “Reconheça o que está diante de teus olhos, e o que está oculto a ti será desvelado. Pois não há nada oculto que não venha ser manifestado.”
(6) Seus discípulos o interrogaram dizendo: “Queres que jejuemos? Como devemos orar? Devemos dar esmolas? Que dieta devemos observar?”
(127) Jesus disse: “Não mintais e não façais aquilo que detestais, pois todas as coisas são desveladas aos olhos do céu. Pois não há nada escondido que não se torne manifesto, e nada oculto que não seja desvelado.”
(7) Jesus disse: “Bem-aventurado o leão que se torna homem quando consumido pelo homem; maldito o homem que o leão consome, e o leão torna-se homem.”
(8) E ele disse: “O homem é como pescador sábio que lança sua rede ao mar e a retira cheia de peixinhos. O pescador sábio encontra entre eles um peixe grande e excelente. Joga todos os peixinhos de volta ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
(9) Jesus disse: “Eis que o semeador saiu, encheu sua mão e semeou. Algumas sementes caíram na estrada; os pássaros vieram e as recolheram. Algumas caíram sobre rochas, não criaram raízes no solo e não produziram espigas. Outras caíram em meio a um espinheiro, que sufocou as sementes e os vermes as comeram. E outras caíram em solo fértil e produziram bons frutos; renderam sessenta por uma e cento e vinte por uma.”
(10) Jesus disse: “Eu lancei fogo sobre o mundo, e eis que estou cuidando dele até que queime.”
(11) Jesus disse: “Este céu passará, e aquele acima dele passará. Os mortos não estão vivos e os vivos não morrerão. Nos dias em que consumistes o que estava morto, vós o tornastes vivo. Quando estiverdes morando na luz, o que fareis? No dia em que éreis um vos tornastes dois. Mas quando vos tornardes dois, o que fareis?”
(12) Os discípulos disseram a Jesus: “Sabemos que tu nos deixarás. Quem será nosso líder?”
Jesus disse-lhes: “Não importa onde estiverdes, devereis dirigir-vos a Tiago, o justo, para quem o céu e a terra foram feitos.”
(13) Jesus disse a seus discípulos: “Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me assemelho.”
Simão Pedro disse-lhe: “Tu és semelhante a um anjo justo.”
Mateus lhe disse: “Tu te assemelhas a um filósofo sábio.”
Tomé lhe disse: “Mestre, minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem te assemelhas.”
Jesus disse: “Não sou teu Mestre. Porque bebeste na fonte borbulhante que fiz brotar, tornaste-te ébrio. (128) E, pegando-o, retirou-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomé retornou a seus companheiros, eles lhe perguntaram: “O que te disse Jesus?”
Tomé respondeu: “Se eu vos disser uma só das coisas que ele me disse, apanhareis pedras e as atirareis em mim, e um fogo brotará das pedras e vos queimará.”
(14) Jesus disse-lhes: “Se jejuardes, gerareis pecado para vós; se orardes, sereis condenados; se derdes esmolas, fareis mal a vossos espíritos. Quando entrardes em qualquer país e caminhardes por qualquer lugar, se fordes recebidos, comei o que vos for oferecido e curai os enfermos entre eles. Pois o que entrar em vossa boca não vos maculará, mas o que sair de vossa boca - é isso que vos maculará.”
(15) Jesus disse: “Quando virdes aquele que não foi nascido de uma mulher, prostrai-vos com a face no chão e adorai-o: é ele o vosso Pai.”
(16) Jesus disse: “Talvez os homens pensem que vim lançar a paz sobre o mundo. Não sabem que é a discórdia que vim espalhar sobre a Terra: fogo, espada e disputa. Com efeito, havendo cinco numa casa, três estarão contra dois e dois contra três: o pai contra o filho e o filho contra o pai. E eles permanecerão solitários.”
(17) Jesus disse: “Eu vos darei o que os olhos não viram, o que os ouvidos não ouviram, o que as mão não tocaram e o que nunca ocorreu à mente do homem.”
(18) Os discípulos disseram a Jesus: “Dize-nos como será o nosso fim.”
Jesus disse: “Haveis, então, discernido o princípio, para que estejais procurando o fim? Pois onde estiver o princípio ali estará o fim. Feliz daquele que tomar seu lugar no princípio: ele conhecerá o fim e não provará a morte.”
(19) Jesus disse: “Feliz o que já era antes de surgir. Se vos tornardes meus discípulos e ouvirdes minhas palavras, estas pedras estarão a vosso serviço. Com efeito, há cinco árvores para vós no Paraíso que permanecem inalteradas inverno e verão, e cujas folhas não caem. Aquele que as conhecer não provará a morte.”
(20) Os discípulos disseram a Jesus: “Dize-nos a que se assemelha o reino do céu.”
Ele lhes disse: “Ele se assemelha a uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes. Mas, quando cai em terra cultivada, produz uma grande planta e torna-se um refúgio para as aves do céu.”
    (129) (21) Maria disse a Jesus: “A quem se assemelham teus discípulos?”
    Ele disse: “Eles se parecem com crianças que se instalaram num campo que não lhes pertence. Quando os donos do campo vierem, dirão: ‘Entregai nosso campo.’ Elas se despirão diante deles para que eles possam receber o campo de volta e para entregá-lo a eles. Por isso digo: se o dono da casa souber que virá um ladrão, velará antes que ele chegue e não deixará que ele penetre na casa de seu domínio para levar seus bens. Vós, portanto, permanecei atentos contra o mundo. Armai-vos com todo poder para que os ladrões não consigam encontrar um caminho para chegar a vós, pois a dificuldade que temeis certamente ocorrerá. Que possa haver entre vós um homem prudente. Quando a safra estiver madura, ele virá rapidamente com sua foice em mãos para colhe-la. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
(22) Jesus viu crianças sendo amamentadas. Ele disse a seus discípulos: “Esses pequeninos que mamam são como aqueles que entram no Reino.” Eles lhe disseram: Nós também, como crianças, entraremos no Reino?” Jesus lhes disse: “Quando fizerdes do dois um e quando fizerdes o interior como o exterior, o exterior como o interior, o acima como o embaixo e quando fizerdes do macho e da fêmea uma só coisa, de forma que o macho não seja mais macho nem a fêmea seja mais fêmea, e quando formardes olhos em lugar de um olho, uma mão em lugar de uma mão, um pé em lugar de um pé e uma imagem em lugar de uma imagem, então, entrareis (no Reino).
(23) Jesus disse: Escolherei dentre vós, um entre mil e dois entre dez mil, e eles permanecerão como um só.”
(24) Seus discípulos disseram-lhe: “Mostra-nos o lugar onde estás, pois precisamos procurá-lo.”
Ele disse-lhes: “Aquele que tem ouvidos, ouça! Há luz no interior do homem de luz e ele ilumina o mundo inteiro. Se ele não brilha, ele é escuridão.”
(25) Jesus disse: “Ama teu irmão como à tua alma, protege-o como a pupila de teus olhos.”
(26) Jesus disse: “Tu vês o cisco no olho de teu irmão, mas não vês a trave em teu próprio olho. Quando retirares a trave de teu olho, então verás claramente e poderás retirar o cisco do olho de teu irmão.”
(27) (Jesus disse:) “Se não jejuardes com relação ao mundo, não encontrareis o Reino. Se não observardes o sábado como um sábado, não vereis o Pai.”
    (130) (28) Jesus disse: “Assumi meu lugar no mundo e revelei-me a eles na carne. Encontrei todos embriagados. Não encontrei nenhum sedento, e minha alma ficou aflita pelos filhos dos homens, porque estão cegos em seus corações e não têm visão. Pois vazios vieram ao mundo e vazios procuram deixar o mundo. Mas no momento eles estão embriagados. Quando superarem a embriaguez, então mudarão sua maneira de pensar.”
    (29) Jesus disse: “Seria uma maravilha se a carne tivesse surgido por causa do espírito. Mas seria a maior das maravilhas se o espírito tivesse surgido por causa do corpo. Estou realmente surpreso pela forma como essa grande riqueza fez morada nessa pobreza.”
    (30) Jesus disse: “Onde há três deuses, eles são deuses. Onde há dois ou um, estou com ele.”
    (31) Jesus disse: “Nenhum profeta é aceito em sua cidade; nenhum médico cura aqueles que o conhecem”.
    (32) Jesus disse: “Uma cidade construída e fortificada sobre uma montanha elevada não pode cair nem pode ser escondida”.
    (33) Jesus disse: “Proclamai sobre os telhados aquilo que ouvirdes com vosso próprio ouvido. Pois ninguém acende uma lâmpada e coloca-a debaixo de um cesto, tampouco coloca-a num lugar escondido, mas num candelabro, para que todos que venham a entrar e sair vejam sua luz.”
    (34) Jesus disse: “Se um cego guia outro cego, ambos cairão numa vala.”
    (35) Jesus disse: “Não é possível que alguém entre na casa de um homem forte e tome-a à força, a menos que lhe ate as mãos; então será capaz de saquear sua casa.”
    (36) Jesus disse: “Não vos preocupeis de manhã até a noite e de noite até a manhã com o que vestireis”.
    (37) Seus discípulos disseram: “Quando tu te revelarás a nós e quando te veremos?”
    Jesus disse: “Quando vos despirdes sem vos envergonhardes e tomardes vossas vestes e, colocando-as sobre vossos pés, pisardes sobre elas como criancinhas, então (vereis) o filho daquele que vive e não tereis medo.”
    (38) Jesus disse: “Muitas vezes haveis desejado ouvir essas palavras que vos digo, e não tendes outro de quem ouvi-las. Pois virão dias em que me procurareis e não me encontrareis.”
    (39) Jesus disse: “Os fariseus e os escribas tomaram as chaves da gnosis. (131) Eles não entraram nem deixaram entrar aqueles que queriam entrar. Vós, no entanto, sede sábios como as serpentes e mansos como as pombas.”
    (40) Jesus disse: “Uma parreira foi plantada fora do Pai, porém, não sendo saudável, ela será arrancada pela raiz e destruída.”
    (41) Jesus disse: “Quem tiver algo em sua mão receberá mais, e quem não tiver nada perderá até mesmo o pouco que tem.”
    (42) Jesus disse: “Tornai-vos passantes.”
    (43) Seus discípulos disseram-lhe: “Quem és tu para dizer-nos tais coisas?”
    [Jesus disse-lhes:] “Não percebeis quem sou eu pelo que vos digo, mas vos tornastes como os judeus! Com efeito, eles amam a árvore e odeiam seus frutos ou amam os frutos, mas odeiam a árvore.”
    (44) Jesus disse: “Quem blasfemar contra o Pai será perdoado e quem blasfemar contra o Filho será perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado nem na terra nem no céu.”
    (45) Jesus disse: “Não se colhe uvas dos espinheiros nem figos dos cardos, pois eles não dão frutos. O homem bom retira o bem do seu tesouro; o malvado retira o mal de seu tesouro malévolo, que está em seu coração, e diz maldade. Pois da abundância do coração ele retira coisas más.”
    (46) Jesus disse: “Dentre os que nasceram da mulher, desde Adão até João, o Batista, não há ninguém superior a João, para que não abaixe os olhos [diante dele]. Mas eu digo, aquele dentre vós que se tornar uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João.”
    (47) Jesus disse: “É impossível para um homem montar dois cavalos ou retesar dois arcos. E é impossível que um servo sirva a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro. Ninguém bebe vinho velho e logo em seguida deseja beber vinho novo. E não se coloca vinho novo em odres velhos, para que não arrebentem; nem se coloca vinho velho em odres novos, para que não o estraguem. E não se cose pano velho em veste nova, porque ela está arriscada a rasgar.”
    (48) Jesus disse: “Se os dois fizerem as pazes nesta casa, eles dirão a montanha: ‘Move-te!’ e ela se moverá.”
      (132) (49) Jesus disse: “Bem aventurados os solitários e os eleitos, pois encontrareis o Reino. Pois, viestes dele e para ele retornareis.”
    (50) Jesus disse: “Se vos perguntarem: ‘De onde vindes?’ respondei: ‘Viemos da luz, do lugar onde a luz nasceu dela mesma, estabeleceu-se e tornou-se manifesta por meio de suas imagens’. Se vos perguntarem: ‘Vós sois isto?’ digam: ‘Nós somos seus filhos e somos os eleitos do Pai vivo’. Se vos perguntarem: ‘Qual é o sinal de vosso Pai em vós?’, digam a eles: ‘É movimento e repouso’”.
    (51) Seus discípulos disseram-lhe: “Quando ocorrerá o repouso dos mortos e quando virá o novo mundo?”
    Ele disse-lhes: “Aquilo que esperais já chegou, mas não o reconheceis.”
    (52) Seus discípulos disseram-lhe: “Vinte e quatro profetas falaram em Israel e todos falaram de ti.”
    Ele disse-lhes: “Omitistes aquele que vive em vossa presença e falastes dos mortos.”
    (53) Seus discípulos disseram-lhe: “A circuncisão é benéfica ou não?”
    Ele disse-lhes: “Se ela fosse benéfica, os pais gerariam filhos já circuncisos de sua mãe. Mas a verdadeira circuncisão, a espiritual, tornou-se inteiramente proveitosa.”
    (54) Jesus disse: “Bem-aventurados os pobres, pois vosso é o Reino do céu.”
    (55) Jesus disse: “Aquele que não odiar (2) seu pai e sua mãe não poderá se tornar meu discípulo. E quem não odiar seus irmãos e irmãs e tomar sua cruz, como eu, não será digno de mim.”
    (56) Jesus disse: “Aquele que conseguiu compreender o mundo encontrou (somente) um cadáver, e quem encontrou um cadáver é superior ao mundo.”
    (57) Jesus disse: “O Reino do Pai é semelhante ao homem que tem [boa] semente. Seu inimigo veio durante a noite e semeou joio por cima da boa semente. O homem não deixou que arrancassem o joio, dizendo: ‘temo que acabeis arrancando o joio e também o trigo junto com ele. No dia da colheita as ervas daninhas estarão bem visíveis e serão, então, arrancadas e queimadas”.
    (58) Jesus disse: “Bem-aventurado o homem que sofreu e encontrou a vida”.
    (59) Jesus disse: “Prestai atenção àquele que vive enquanto estais vivos, para que, ao morrerdes, não fiqueis procurando vê-lo sem conseguir”.
      (133) (60) [Eles viram] um samaritano carregando um cordeiro a caminho da Judéia. Ele disse a seus discípulos: “Por que o homem está carregando o cordeiro?”
Eles disseram-lhe: “Para matá-lo e comê-lo”.
Ele disse-lhes: “Enquanto o cordeiro estiver vivo, ele não o comerá, mas somente depois que o tiver matado e que o cordeiro se tornar um cadáver”.
Eles disseram-lhe: “Ele não poderia fazer de outro modo”.
Ele disse-lhes: “Vós, também, buscai um lugar para vós no repouso, a fim de que não vos torneis um cadáver e sejais devorados”.
(61) Jesus disse: “Dois repousarão sobre um leito: um morrerá, o outro viver.”.
Salomé disse: “Quem és tu homem, que ... te acomodaste em meu divã e comeste à minha mesa?”
Jesus disse-lhe: “Eu sou aquele que existe a partir do indivisível. Recebi algumas das coisas de meu pai”.
[ ... ] “Eu sou seu discípulo”.
[ ... ] “Por isso digo que, se for destruído, ele estará pleno de luz, mas, se ele estiver dividido, estará pleno de trevas”.
(62) Jesus disse: “Eu digo meus mistérios aos [que são dignos de meus] mistérios. Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita”.
(63) Jesus disse: “Havia um rico que tinha muito dinheiro. Ele disse: ‘Empregarei meu dinheiro para semear, colher, plantar e encher meu celeiro com o fruto da colheita, para que não me venha a faltar nada’. Essas eram suas intenções, mas naquela mesma noite ele morreu. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça”.
(64) Jesus disse: “Um homem tinha convidados. E quando a ceia estava pronta, mandou seu servo chamar os convidados. O servo foi ao primeiro e disse-lhe: ‘Meu mestre te convida’. O outro respondeu: ‘Tenho dinheiro aplicado com alguns comerciantes. Eles virão me procurar esta noite para que eu lhes dê minhas instruções. Apresento minhas desculpas por não ir à ceia. O servo foi até outro e disse: ‘Meu senhor está te convidando’. Este disse-lhe: ‘Acabo de comprar uma casa e precisam de mim hoje. Não terei tempo’. O servo foi a outro e disse-lhe: ‘Meu senhor está te convidando’. Este disse-lhe: ‘Um amigo vai se casar e coube-me preparar o banquete. Não poderei ir à ceia, peço ser desculpado. O servo foi a outro ainda e disse-lhe: ‘Meu senhor está te convidando’. Este disse-lhe: ‘Acabo de comprar uma fazenda e estou saindo para buscar o rendimento. Não poderei ir, por isso me desculpo’. O servo retornou e disse a seu senhor: ‘Os que convidaste para a ceia mandam pedir desculpas’. (134) O senhor disse ao servo: ‘Vai lá fora pelos caminhos e traze os que encontrares para que possam ceiar. Os homens de negócios e mercadores não entrarão no recinto de meu Pai’”.
(65) Ele disse: “Um homem de bem tinha uma vinha. Ele a alugou a camponeses para que cuidassem dela e pagassem-lhe com uma parte da produção. Ele enviou seu servo para que os arrendatários entregassem-lhe o fruto da vinha. Eles pegaram seu servo e o espancaram, deixando-o à beira da morte. O servo voltou e contou a seu senhor o ocorrido. O senhor disse: ‘Talvez não o tenham reconhecido’. Ele enviou outro servo. Os camponeses também o espancaram. Então o proprietário enviou seu filho e disse: ‘Talvez eles tenham respeito por meu filho’. Como os camponeses sabiam que aquele era o herdeiro da vinha, pegaram-no e mataram-no. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
(66) Jesus disse: “Mostrai-me a pedra que os construtores rejeitaram; ela é a pedra angular.”
(67) Jesus disse: “Se alguém que conhece o todo ainda sente uma deficiência pessoal, ele é completamente deficiente”.
(68) Jesus disse: “Bem-aventurados os que são odiados e perseguidos. Mas os que vos perseguirem não encontrarão lugar”.
(69) Jesus disse: “Bem-aventurados aqueles que foram perseguidos em seu interior. São eles que realmente conheceram o pai. Bem-aventurados os famintos, porque se encherá o ventre de quem tem desejo”.
(70) Jesus disse: “Aquilo que tendes vos salvará se o manifestardes. Aquilo que não tendes em vosso interior vos matará se não o tiverdes dentro de vós”.
(71) Jesus disse: “Destruirei esta casa e ninguém será capaz de reconstruí-la [...]”
(72) [Um homem disse-lhe]: “Dize a meus irmãos para que partilhem os bens de meu pai comigo”.
Ele lhe disse: “Ó, homem, quem me institui partilhador?”
Voltando-se para seus discípulos, disse-lhes: “Eu não sou um partilhador, sou?”
(73) Jesus disse: “A colheita é grande mas os operários são poucos. Portanto, implorai ao senhor para que envie operários para a colheita”.
(74) Ele disse: “Ó senhor, há muitas pessoas ao redor do bebedouro, mas não há nada na cisterna.”
(75) Jesus disse: “Muitos estão aguardando à porta, mas são os solitários que entrarão na câmara nupcial”.
(135) (76) O Reino do pai é semelhante ao comerciante que tinha uma consignação de mercadorias e nelas descobriu uma pérola. Esse comerciante era astuto. Ele vendeu as mercadorias e adquiriu a pérola maravilhosa para si. Vós também deveis buscar esse tesouro indestrutível e duradouro, que nenhuma traça pode devorar nem o verme destruir”.
(77) Jesus disse: “Eu sou a luz que está sobre todos eles. Eu sou o todo. De mim surgiu o todo e de mim o todo se estendeu. Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai a pedra e me encontrareis lá”.
(78) Jesus disse: “Por que viestes ao deserto? Para ver um caniço agitado pelo vento? E para ver um homem vestido com roupas finas como vosso rei e vossos homens importantes? Esses usam roupas finas, mas são incapazes de discernir a verdade.”
(79) Uma mulher na multidão disse-lhe: “Bem-aventurado o ventre que te portou e os seios que te nutrira.”.
Ele disse-lhe: “Bem-aventurados os que ouviram a palavra do Pai e que realmente a guardaram. Pois virão dias em que direis: “Bem-aventurado o ventre que não concebeu, e os seios que não amamentaram”.
(80) Jesus disse: “Aquele que reconheceu o mundo encontrou o corpo, mas aquele que encontrou o corpo é superior ao mundo”.
(81) Quem enriqueceu, torne-se rei, mas quem tem poder que possa renunciar a ele.”
(82) Jesus disse: “Aquele que está perto de mim está perto do fogo, e aquele que está longe de mim está longe do Reino”.
(83) Jesus disse: “As imagens manifestam-se ao homem, mas a luz que está nelas permanece oculta na imagem da luz do Pai. Ele tornar-se-á manifesto, mas sua imagem permanecerá velada por sua luz”.
(84) Jesus disse: “Quando vedes vossa semelhança, vós vos rejubilais. Mas, quando virdes vossas imagens que surgiram antes de vós, e que não morrem nem se manifestam, quanto tereis de suportar!”
(85) Jesus disse: “Adão surgiu de um grande poder e de uma grande riqueza, mas ele não se tornou digno de vós. Pois, se tivesse sido digno, não teria experimentado a morte”.
(86) Jesus disse: “[As raposas têm suas tocas] e as aves têm seus ninhos, mas o filho do homem não tem nenhum lugar para pousar sua cabeça e descansar.”
(87) Jesus disse: “Miserável do corpo que depende de um corpo e da alma que depende desses dois”.
(88) Jesus disse: “Os anjos e os profetas virão a vós e darão aquelas coisas que já tendes. E dai vós também a eles as coisas que tendes e dizei a vós mesmos: ‘Quando virão tomar o que é deles?’”
(89) Jesus disse: “Por que lavais o exterior da taça? Não compreendeis que aquele que fez o interior é o mesmo que fez o exterior?”
(90) Jesus disse: “Vinde a mim, pois meu jugo é fácil e meu domínio é suave, e encontrareis repouso para vós”.
(91) Eles disseram-lhe: “Dize-nos quem tu és, para que possamos crer em ti.”
Ele disse-lhes: “Vós decifrastes a face to céu e da terra, mas não reconhecestes aquele que está diante de vós e não soubestes perceber este momento”.
(92) Jesus disse: “Buscai e encontrareis. No entanto, aquilo que me perguntastes anteriormente e que não vos respondi então, agora desejo vos dizer mas vós não me perguntais sobre aquilo”.
(93) [Jesus disse]: “Não deis aos cães o que é sagrado, para que eles não o joguem no lixo. Não atireis pérolas aos porcos, para que eles ...”
(94) Jesus [disse]: “Quem busca, encontrará, e [quem bate] terá permissão para entrar”.
(95) [Jesus disse]: “Se tendes dinheiro, não o empresteis a juro, mas dai-o àquele de quem não o recebereis de volta”.
(96) Jesus disse: “O Reino do Pai é como [uma certa] mulher. Ela tomou um pouco de fermento, [escondeu-o] na massa, e fez com ela grandes pães. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”
(97) Jesus disse: “O Reino do Pai é como uma certa mulher que estava carregando um cântaro cheio de farinha. Enquanto estava caminhando pela estrada, ainda distante de casa, a alça do cântaro partiu-se e a farinha foi caindo pelo caminho atrás dela. Ela não se deu conta, pois não tinha percebido o acidente. Quando chegou em casa, colocou o cântaro no chão e percebeu que ele estava vazio”.
(98) Jesus disse: “O Reino do Pai é como um certo homem que queria matar um homem poderoso. Em sua própria casa ele desembainhou a espada e enfiou-a na parede para saber se sua mão poderia realizar a tarefa. Então ele matou o homem poderoso”.
(99) Os discípulos disseram-lhe: “Teus irmãos e tua mãe estão aguardando lá fora.”
Ele disse-lhes: “Estes que estão aqui que fazem a vontade de meu Pai são meus irmãos e minha mãe. São eles que entrarão no Reino de meu Pai”.
(100) Eles mostraram uma moeda de ouro a Jesus e disseram-lhe: “Os homens de César exigem-nos tributos”.
Ele disse-lhes: “Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus, e dai a mim o que é meu”.
(101) [Jesus disse]: “Quem não odeia (3) seu [pai] e sua mãe como eu não pode se tornar meu [discípulo]. E quem não ama seu [pai e] sua mãe como eu não pode se tornar meu [discípulo]. Porque minha mãe [ ... ], mas [minha] verdadeira [mãe] deu-me a vida”.
(102) Jesus disse: “Ai dos fariseus, porque eles são como um cachorro dormindo na manjedoura dos bois, pois eles não comem nem permitem que os bois comam.”
(103) Jesus disse: “Feliz do homem que sabe por onde os ladrões vão entrar, porque dessa forma [ele] pode se levantar, passar em revista seu domínio e armar-se antes deles invadirem”.
(104) Eles disseram a Jesus: “Vem, oremos e jejuemos hoje”.
Jesus disse: “Qual foi o pecado que cometi ou em que fui vencido? Porém, quando o noivo deixar a câmara nupcial, então que eles jejuem e orem”.
(105) Jesus disse: “Quem conhece o pai e a mãe será chamado filho de prostituta.”
(106) Jesus disse: “Quando fizerdes de dois, um, vos tornareis filhos do homem, e quando disserdes: ‘Montanha, move-te!’, ela se moverá”.
(107) Jesus disse: “O Reino é como um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior de todas, extraviou-se. Ele deixou as noventa e nove e foi procurá-la, até encontrá-la. Depois de ter passado por todo esse incômodo, ele disse à ovelha: ‘Eu me interesso por ti mais do que pelas noventa e nove’”.
(108) Jesus disse: “Quem beber de minha boca tornar-se-á como eu. Eu mesmo me tornarei ele, e as coisas que estão ocultas ser-lhe-ão reveladas”.
(109) Jesus disse: “O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro. Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria”.
(110) Jesus disse: “Quem encontrou o mundo e tornou-se rico, que renuncie ao mundo”.
(111) Jesus disse: “Os céus e a terra se dobrarão diante de vós. E aquele que vive do Vivo não conhecerá a morte. Jesus não disse: ‘Quem se encontra é superior ao mundo?’”
(112) Jesus disse: “Ai da carne que depende da alma; ai da alma que depende da carne”.
(113) Seus discípulos disseram-lhe: “Quando virá o Reino?”
[Jesus disse]: “Ele não virá porque é esperado. Não é uma questão de dizer: ‘eis que ele está aqui’ ou ‘eis que está ali’. Na verdade, o Reino do Pai está espalhado pela terra e os homens não o vêem.”
(114) Simão Pedro disse-lhes: “Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da vida”.
Jesus disse: “Eu mesmo vou guiá-la para torná-la macho, para que ela também possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vós machos. Porque toda mulher que se tornar macho entrará no Reino do Céu”.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Livro de Malquisedeque II - LOS MANUSCRITOS DESCUBIERTOS EN NAG HAMMADI

LOS MANUSCRITOS DESCUBIERTOS EN NAG HAMMADI



Livro de Malquisedeque
Segunda parte A História de Salém
Capítulo I
Esta é a história de Salém, segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de Sukot, cinco dias depois do livramento de e suas filhas. Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias. Ele possuía muitas riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor. Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria Salém, a Cidade da Paz. Os súditos de Salém não empunhariam arcos nem flechas, mas seriam treinados na arte musical. Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical, para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos formariam uma poderosa orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo.
O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo reino, as quais ele escreveu em um pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar, odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz. As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima de tudo, do amor, que é a maior de todas as virtudes.
Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas. Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das Oliveiras. Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de perto e de longe, vinham para conhecer os palácios e as mansões que estavam sendo edificados. Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.
Capítulo II
A edificação da cidade foi finalmente concluída, e Salém revelou-se formosa como uma noiva adornada, à espera de seu esposo. Assentado em seu trono, Adonias examinava os numerosos pretendentes que chegavam de todas as partes, desejosos em ser súditos daquele reino. Aqueles que, prometendo fidelidade às leis eram aprovados, recebiam três dotes do rei: o direito a uma mansão, vestes de linho fino e um instrumento musical no qual deveriam praticar.
A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo:
  • A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados, nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que permanecerem leais, progredindo na prática das leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões serão banidos pelo juízo.
As palavras do rei levaram todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os males.
Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado haviam sido sua inspiração para a edificação de seu reino. Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. Este plano, ele o manteria em segredo até o momento devido.
O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido de todos em Salém. Ele tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em seus lares, recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que vivia a compor. Sua presença trazia ao ambiente uma atmosfera de felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.
Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho. Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa pessoa a quem desejava honrar. Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros, Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia fiel do príncipe, chamava-se Samael. Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde foi recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os quais o direito de estar sempre ao seu lado.
Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram com alegria, acreditando ser ele o próprio príncipe.
Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai. No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das virtudes que coroavam o amado príncipe.
Capítulo III
Salém crescia em felicidade e paz. Com alegria, os súditos reuniam-se a cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz. Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa, sobressaía aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do pergaminho. Com admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções. As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor. Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe, além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de seu íntimo.
Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações. Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael. Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor daquelas doces canções. Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos mantidos até então em segredo. Com voz pausada, disse-lhes:
  • Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos hoje são maiores.
Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:
  • Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo fiéis como até aqui, sereis honrados, confirmados como súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.
As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se, indagavam reverentes:
  • Estaremos aprovados?!
Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes seu grande segredo:
  • Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o meu filho, a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.
A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes revelara todo o seu plano, por isso, pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:
  • O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio. Seu cetro, simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.
Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe, prostrando-se aos pés de seu pai, chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa. Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:
  • No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o guardião da honra desse reino triunfante.
Capítulo IV
Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia. Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória. Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.
Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?! Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade. Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe, recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções. Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa “vitória” procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.
Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro, onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam os louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens. As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e humildade do pergaminho. Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler compassadamente os seguintes parágrafos:
  • O reino de Salém será firmado sobre a humildade, pois esta virtude é a base de toda verdadeira grandeza. A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações, iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito valor. A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço aos semelhantes.
Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:
  • Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito acima deste pergaminho, cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses anos de prova. A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.
O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura. Como libertá-lo desse caminho de morte?!
Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz. Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso. Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo. Os dias que seguiram-se à libertação foram cheios de realizações. O príncipe revelava-se ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o cetro que estava sendo moldado.
Num momento de descuido, Samael, que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.
Capítulo V
De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos o aclamariam como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer. Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista. Samael decidiu agir subtilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho um empecilho à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos.
Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade. Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que, em meio àquela atmosfera de júbilo e gratidão, uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos poderiam cair por descuido. Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver exercido naqueles seis anos, prestes a findarem, uma missão de prova. Em sua lógica, contudo, procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho seria um entrave à concretização da verdadeira liberdade.
As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos seria selado. Um terço dos habitantes, seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados. Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições. Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, dando lugar ao caos.
Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade, ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou. Até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.
Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom, que fica fora dos muros de Salém. Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, começou a falar-lhes de seus planos de vingança e traição:
  • Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.
Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações sobre a maneira de agirem a partir daquela data:
  • Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação. À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos. Acabaremos então com o pergaminho e com todos aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.
Capítulo VI
Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz. Samael, fingindo fidelidade, estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam. Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação, ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente para aquela ocasião. Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia. Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria o golpe da traição.
Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o, o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio. Compreendeu que aquele que o possuísse teria nas mãos o reino de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso.
O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota. Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso. Como ansiara por aquela noite! Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória, revisavam sob a luz de candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o golpe.
À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom, onde esperariam pelo seu novo rei. Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro.
Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo, dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:
  • Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.
Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:
  • Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.
O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde, com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em seu devido lugar. Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio. Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:
  • Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a terra e o mar. A minha força está nas trevas, pois através delas o conquistei.
Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.
O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur). Despertando de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.
Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento. Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, levando consigo seus instrumentos musicais. Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos. Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava a face mais querida de seu amigo Samael. Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael. Sua voz, contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.
Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em sua glória, através de conselhos sábios. Recordou aqueles dias que seguiram à sua recuperação. Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a pressentir a tragédia, vieram-lhe à lembrança as indagações de Samael sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite, deu-lhe a certeza de que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor. Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo. Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos do rebelde.
Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis. Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.
Capítulo VII
Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da escadaria, sendo seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a expectativa de ver morrer nos lábios dos fiéis, naquela manhã, o seu alegre canto, devido ao golpe da traição. Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono que esperava pelo jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a um arranjo de flores, o pergaminho das leis. Junto dele podia-se ver a linda coroa, feita de ouro e pedras preciosas, bem como o estojo daquele cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.
Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam considerados dignos de herdar aquele reino de paz. Aguardavam agora o momento da coroação, quando o seu novo rei os regeria de seu trono com seu cetro precioso, num cântico triunfal. Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a seu pai, que o recebeu com um carinhoso abraço. O momento era deveras solene. As hostes silenciaram-se na expectativa da coroação. O estojo seria aberto e todos testemunhariam a exaltação do querido príncipe. Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o estojo, abrindo-o cuidadosamente. Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu semblante deu lugar a uma expressão de indizível preocupação e tristeza, pois naquele cetro selara o destino daquele reino de paz.
Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de tantos amigos que deveriam estar com eles naquele momento, Melquisedeque consolou-os com a promessa de que buscaria o cetro. Inconscientes dos riscos e perigos que aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.
O alvorecer daquele dia que seria o da coroação alcançou os rebeldes distantes de Salém, a caminho das cidades da planície. Naquele manhã, Samael encheu-se de fúria ao ver que o precioso alaúde estava adornado com inscrições das leis contidas no pergaminho. Tomando uma pedra pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras de amor e justiça. Suas harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre o seu bojo ferido, mas continuava sendo precioso, pois sobre ele jazia selado o domínio de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o poder.
Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a seus seguidores que prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até Sodoma, onde permaneceria por dois dias, juntando-se depois a eles. Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou pelas ruas estreitas sem ser notado, até encontrar uma casa isolada sobre uma elevação. Fazendo do cetro sua arma, invadiu a casa matando seus moradores, enquanto dormiam. Apossou-se dessa maneira daquela residência onde, solitário, maquinaria seus planos para a tomada de Salém.
O entardecer daquele dia que seria o da coroação alcançou o filho de Adonias a caminhar pelo pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos carregados de tristeza e anseio voltam-se para o solo, em busca dos rastros dos rebeldes. A lembrança da ingratidão daqueles a quem tanto amava o fez chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos lampejos daquele sol poente, assemelham-se a gotas de sangue jorrando de um coração ferido. Ele chorava não por causa dos perigos que lhe sobreviriam naquela fria noite, mas pela infeliz sorte daqueles que haviam trocado a paz de Salém pela violência daquelas cidades da planície. O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as tentações, haviam permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro, e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.
Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado ao lado do caminho, raiou a luz de um dia que seria decisivo. Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão próximo do cetro de sua amada Salém fez com que se esquecesse de toda a fadiga, abreviando seus passos rumo ao desafio. Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao ouvir ruídos espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o egoísmo e a cobiça que ali dominavam todos os corações, fazendo-os explodir na orgia de uma maldade sem fim.
Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse pensamento o fez deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou a fronte em indizível luta íntima. Era tentado a recuar, mas lutava com todas as forças de sua alma contra esse pensamento de fracasso. Pensando na triste sorte de Salém, cujo domínio estava sendo pisado no interior daquela cruel Sodoma, Melquisedeque tomou uma firme decisão: como um destemido guerreiro haveria de avançar, e, mesmo que tivesse de enfrentar o acúmulo de todos os perigos, prosseguiria, até erguer em suas mãos vitoriosas o cetro amado.
Resoluto e esperançoso, transpôs o portão de Sodoma, mergulhando naquele mundo estranho. Tudo ali era o oposto de Salém, começando pelas pedras ásperas e sujas de suas construções. Sodoma era um reino de trevas. A presença contrastante do príncipe foi logo notada por muitos que, em tumulto, o cercaram. A pureza de caráter expressa em sua meiga face e o esplendor de suas vestes encheram-nos de espanto, e recuaram como que vencidos por uma força invisível. Dominados pela fúria, passaram a persegui-lo à distância, decididos a fazê-lo recuar. Jogavam-lhe pedras e lama tentando macular-lhe as vestes, mas não o atingiam, enquanto ele avançava em sua ansiosa busca. Desistiram finalmente de persegui-lo, ao entardecer.
Capitulo VIII
O filho de Adonias percorrera todas as ruas e becos à procura do precioso cetro, mas em vão. Ao ver tombar no horizonte o sol, anunciando a chegada de mais uma escura e fria noite, seu coração ficou opresso por uma grande agonia. Ali, naquele último beco, quase vencido pela exaustão e pelo desespero, inclinou a fronte, desfazendo-se em pranto. Seus lábios pronunciaram em meio aos soluços as seguintes palavras:
  • Salém, Salém, você não pode perecer! O seu cetro precisa ser redimido das garras da rebeldia! Mas quando e onde vou encontrá-lo?! Já não restam forças em mim e a esperança de redimi-lo antes da noite me abandona!
O príncipe, em sua suprema angústia, não percebia que outro gemido de dor, procedente de cordas arrebentadas de um alaúde humilhado, fazia-se ouvir naquele entardecer. Subitamente, o fraco gemido penetrou seus ouvidos, reanimando-o com a certeza de que o grande momento da redenção havia chegado. Enxugando as lágrimas, reuniu as últimas forças correndo em direção a uma pequena casa situada sobre um monte, de onde parecia vir o som. Ao dirigir-se à porta entreaberta, deteve-se ao contemplar uma cena chocante, de humilhante escravidão: Samael, envolvido por um manto sujo, castigava o cetro de Salém. Tanto o rapaz quanto o cetro achavam-se tão desfigurados, que não restavam neles quase nenhum traço da glória perdida. Aquele cetro, contudo, mesmo arrasado como estava, era muito precioso, pois nele jazia o selo do domínio de Salém.
A contemplação daquele que fora seu maior amigo e daquele cetro idealizado como símbolo de toda a harmonia, em tão trágica condição, comoveu profundamente o príncipe, fazendo-o chorar em alta voz. Somente então o súdito rebelde percebeu sua presença indesejada. Estremecido, levantou-se, e, cheio de ira perguntou-lhe:
  • O que o trouxe a Sodoma?
Apontando para o cetro danificado, Melquisedeque exclamou:
  • A glória de Salém está destruída!!!
Com uma gargalhada, Samael zombou de sua tristeza, dizendo:
  • Agora eu sou o rei de Salém. Vocês que são fiéis ao pergaminho, tornar-se-ão meus escravos.
Sem se importar com as palavras de afronta de Samael, o príncipe, movido por uma infinita angústia, disse-lhe:
  • Samael, Salém está ferida por sua traição. Por que você trocou o seu lar de justiça e amor por esse vale de injustiça, ódio e morte?! Agora, se não deseja retornar à
  • Salém arrependido, devolva-lhe o cetro. Foi para redimi-lo que, a despeito de todos os perigos, desci a esse vale hostil.
.
Conhecendo o propósito do príncipe, o rebelde encheu-se de raiva e, cerrando os punhos, disse-lhe:
- Eu o odeio Melquisedeque!
Tendo dito isto, arremessou o cetro ao chão, e pisando-o acrescentou:
  • Tenho vontade de fazer o mesmo com você.
Diante dessa afronta, o príncipe não sentiu nenhum temor, mas compaixão. Transportando-se ao feliz passado, lembrava-se dos momentos felizes em que tinha sempre ao seu lado a Samael. Ele era um jovem puro e humilde de coração. Por que permitira ser escravizado pela ilusão do orgulho e do egoísmo?! Quão doloroso era ver aquele jovem que, por sua beleza e simpatia, havia sido honrado acima de todos os súditos, agora arruinado pela cobiça! Não fora o sonho do príncipe ter junto ao seu trono glorificado, aquele que lhe era o mais precioso amigo?! Essa tragédia feria-lhe a alma.
Contudo, a triste condição do cetro o atingia ainda mais, pois ele fora feito como o símbolo de toda a harmonia, e estava sendo desfeito sob os pés da ingratidão. Surpreso por não ver nos olhos de Melquisedeque nenhuma expressão de temor, porém de piedade, Samael sentiu-se frustrado em suas afrontas que visavam amedrontá-lo, levando-o desistir de sua missão. Diante da postura digna do príncipe, que em silente dor o contemplava, sentiu-se envergonhado. Essa fraqueza, contudo, foi banida pelo orgulho que dominava o seu coração. Começou então a planejar algo terrível, para humilhar e ferir o príncipe, fazendo-o sofrer ainda mais.
Com escárnio disse-lhe:
  • O cetro de Salém poderá ser seu, se você conseguir pagar-me o preço de seu resgate.
Com um brilho nos olhos, o príncipe perguntou-lhe:
  • Qual é o preço?
Samael, com um sorriso maldoso, respondeu-lhe pausadamente:
  • O preço não é ouro nem prata, mas dor e sangue. Você deverá despir-se completamente de suas vestes, deitando-se ao chão. Deverá suportar nessa condição, espancamentos, até que o sol se ponha. Se você estiver disposto a submeter-me, sem reagir, o cetro será inteiramente seu
Estremecido ante tão cruel proposta, o filho de Adonias olhou para o sol que pairava distante sobre uma nuvem. Passou a travar em seu coração uma luta intensa. A princípio, o horror do sacrifício quase o dominou, levando-o recuar, mas o pensamento de ver Salém escravizada pela rebeldia, levou-o finalmente à decisão de pagar o preço do resgate, entregando-se ao humilhante sofrimento.
Tendo tomado a firme decisão de resgatar o cetro, o príncipe tirou as vestes, colocando-as sobre uma pedra. Deitou-se em seguida naquele solo frio, com a fronte voltada para o poente. Impiedosamente, Samael começou a espancá-lo, fazendo uso do próprio cetro como instrumento de tortura. Gemendo pela dor dos golpes que o faziam sangrar, o príncipe mantinha o olhar fixo no sol que parecia deter-se sobre a nuvem. Atordoado pela dor, contemplou finalmente o sol prestes a se pôr. Alentado pela vitória que se aproximava, murmurou baixinho:
  • Salém, Salém, daqui a pouco terei em meus braços o teu cetro precioso que, em minhas mãos, tornar-se-á num instrumento de justiça e paz.
Ouvindo a promessa do príncipe feita por entre gemidos, Samael bradou-lhe com fúria:
  • O seu sofrimento não trará nenhum alvorecer para Salém, pois suas mãos jamais serão capazes de tocar no cetro.
Depois de fazer essa afronta, Samael apossou-se de uma pedra pontuda, preparando-se para desferir os últimos golpes. Enquanto pensava sobre a feliz vitória de Salém, Melquisedeque sentiu seu braço direito ser comprimido pelos pés de Samael. Seguiu a esse rude gesto um golpe que o fez contorcer-se em agonia. Sua mão fora vazada cruelmente, passando a jorrar abundante sangue da ferida aberta. Essa mesma violência foi descarregada logo depois sobre sua mão esquerda. Não suportando a agonia causada por esses derradeiros golpes, o filho de Adonias, ensangüentado, mergulhou nas trevas de um profundo desmaio.
Capitulo IX
Ao cessar de golpear o príncipe, o súdito rebelde ficou possuído por um estranho horror, ao contemplar na face daquele que somente lhe fizera o bem, o torpor da morte. Procurava não recordar o passado, mas, irresistente, sentia ser arrastado aos dias de sua feliz inocência em Salém. Revestido de ricas vestes estava sempre ao lado do príncipe que, com dedicação, ensinava-lhe a cada dia suas canções falando de paz. Nas indesejadas lembranças pelas quais era arrastado, reviveu seus primeiros passos no caminho do orgulho e do egoísmo. Lembrou-se dos incessantes conselhos e rogos daquele que fora seu melhor amigo, para que desistisse daquele caminho que poderia conduzi-lo à infelicidade.
Depois de ser arrastado em lembranças por todo aquele passado de felicidade destruída por sua culpa, Samael teve consciência de sua ingratidão. Horrorizado pelo que fizera, curvou-se sobre o corpo ensangüentado de Melquisedeque, e desesperou-se ao vê-lo sem vida. Não suportando o peso da grande culpa, deixou às pressas aquele lugar, desejando ocultar-se distante, sob as trevas da fria noite.
Depois de um profundo desmaio, o príncipe começou a voltar à consciência. Em delírios que o transportavam ao seio de sua amada Salém, ele revivia momentos vividos e sonhados. Com alegria contemplava a face de seu maior amigo, para quem estendeu a mão com um sorriso. Mas seu gesto foi frustrado por uma profunda dor. Em meio aos aplausos dos súditos vitoriosos, recebe de seu pai o cetro, mas, ao tocá-lo, sente uma irresistível dor em suas mãos. Com esses sonhos frustrados pela dor, Melquisedeque despertou para a realidade. Estava nu, ferido e solitário, em um lugar perigoso, longe do abrigo e carinho de Salém. Mais doloroso era pensar que tudo aquilo era a retribuição de alguém que fora o alvo principal de todas as dádivas de seu amor.
O príncipe, sem poder mover-se, considerando a grande traição, passou a chorar sem consolo. Lamentava não por sua dor, mas pela perdição daqueles que haviam trocado o carinho e a justiça de Salém pelo desprezo e ódio que os reduziriam finalmente a cinzas sobre aquele vale condenado. Através das lágrimas, o príncipe contemplava o céu que, semelhante a um manto tinto de sangue, estendia-se banhado na luz do sol poente. Lembrou-se então do alaúde pelo qual pagara tão alto preço. Onde estaria ele? Em sua desesperada fuga, Samael deixara o cetro abandonado junto ao corpo ferido de Melquisedeque. Quando ele o viu, esqueceu-se de toda a dor, e alcançou-o com suas mãos feridas. Acariciando-lhe o bojo arruinado, disse-lhe com um sorriso:
  • Você é meu novamente. Eu o comprei com o meu sangue.
Samael que, dominado pelo estranho horror, fugira após cometer o horrível crime, deteve-se a um passo do portão de Sodoma. Ali impulsionado pelo orgulho, arrependeu-se com indignação de sua fraqueza. Por que fugira depois de conquistar tão grande vitória? Não era seu plano destruir o reino de Salém, para estabelecer seu próprio reino? Lembrando-se do cetro, decidiu retornar para tomá-lo. Por que o deixara abandonado junto ao cadáver daquele odiado príncipe?
Reunindo suas poucas forças, Melquisedeque dirigiu-se tropegamente ao lugar em que deixara suas vestes. Depois de vestir-se, tendo junto ao peito o cetro amado, o filho de Adonias, com profunda emoção, fez um juramento antes de deixar aquele lugar de seu sofrimento. Acariciando o cetro, disse-lhe:
  • Meu querido cetro, você foi criado como um emblema da harmonia que procede da justiça e do amor. Toda a glória de Salém repousava sobre você quando a rebeldia em sua ingratidão escravizou-o, arrastando-o para este vale hostil. Aqui você foi ferido e humilhado, vindo a tornar-se um instrumento de impiedade nas mãos do tirano. Eu, porém, o redimi com o meu sangue. Agora nossas feridas serão restauradas, e em breve seremos entronizados em meio aos louvores de uma Salém vitoriosa. Quando esse sonho se concretizar, testemunharemos juntos o fim daqueles que se levantaram contra nós para nos ferir. Samael e seus seguidores serão devorados pelo fogo que reduzirá a cinzas Sodoma e Gomorra.
Concluindo seu solene juramento, o jovem príncipe, já oculto pelas trevas da noite, deixou aquela colina, e sobre ela as marcas de seu sofrimento.
Desde que o filho do rei partira, prometendo retornar com o cetro, Salém vivia momentos de indizível anseio. Em pranto, o rei e os súditos remanescentes lembravam-se de todo aquele feliz passado desfeito pela ingratidão dos rebeldes. O que mais lhes torturava era a ausência do príncipe e do cetro, sem os quais todo o brilho daquele reino de paz se ofuscaria. Desejando consolar o coração de seus súditos, Melquisedeque avançava em meio à noite rumo aos montes que cercavam Salém. Ainda que enfraquecido e ferido, prosseguia em sua marcha ascendente, esperando alcançar sua pátria pela manhã.
Aquela longa e escura noite foi finalmente vencida pelos raios do alvorecer. Em Salém a esperança em rever Melquisedeque com o seu cetro estava quase banida quando, ao olharem para o Monte das Oliveiras, viram-no descendo pelo caminho do Getsêmani. Quando o encontraram no profundo vale de Cedrom, ficaram assustados com sua aparência: sua face estava pálida e seu manto encharcado de sangue. Mesmo assim, ele sorria expressando grande alegria. Ao perguntarem-no sobre o porquê daquelas marcas de sangue, Melquisedeque retirou de sob o manto suas mãos feridas, revelando-lhes entre elas o cetro redimido. Depois de contar-lhes os passos que o levaram ao resgate do cetro, os súditos, emudecidos, prostraram-se reverentes aos seus pés, aclamando-o como seu redentor e rei. Em meio aos louvores das hostes redimidas, o príncipe foi introduzido no palácio real, onde, sob os cuidados de seu amoroso pai, deveria restabelecer-se de seu sofrimento. O cetro desfigurado, agora mais precioso, seria também restaurado, devendo tornar-se mais belo que antes. O dia da coroação foi fixado para o próximo Yom Kipur. Naquele dia, Melquisedeque selaria com o cetro restaurado o triunfo de todos os fiéis, bem como a condenação dos rebeldes.
Capitulo X
Poucos instantes após a saída de Melquisedeque, Samael chegara ao local onde o deixara aparentemente sem vida, ao lado do alaúde. Sem entender aquele misterioso desaparecimento, ele prosseguiu para Gomorra, onde seus seguidores o esperavam. Ao vê-los, proclamou sua “vitória” sobre o odiado príncipe e sobre o cetro, os quais massacrara em Sodoma, não restando aos seguidores do pergaminho nenhuma esperança. Suas palavras agradaram a turba rebelde, que passou a comemorar a “conquista”, entregando-se à orgia. Zombavam agora da justiça e do amor, exaltando a Samael como rei vitorioso.
Obteriam agora armas, com o propósito de avançarem sobre Salém, desferindo-lhe o último golpe. Juntaram-se a eles, em seu maléfico propósito, muitos criminosos que foram recebidos como mestres no manejo de arcos e flechas. Em sua loucura, Samael ordenou o banimento de todo calendário, pois em seu reino de “liberdade” não estariam sujeitos a nenhum cômputo de tempo. As leis da moralidade foram também banidas, surgindo com isso um completo caos. Essa desordem revelou-se de maneira mais patente no barulho estridente e cacofônico, ao qual proclamaram como a nova música. Dominados pelo egoísmo, Samael e seus seguidores alimentavam-se de ilusões, inconscientes de que seus dias estavam contados. Os frutos da rebelião não tardariam a atrair sobre eles o fogo da destruição.
Dividindo seus seguidores em pequenos grupos, Samael passou a comandá-los em atos violentos que aterrorizavam os moradores das planícies. Por esse tempo, eles escondiam-se nas cavernas situadas próximas ao mar salgado.
O respeito e o medo dos guerrilheiros de Samael levaram finalmente os reis de quatro cidades a procurarem-no, propondo alianças de paz. Eram eles: Bara, rei de Sodoma; Bersa, rei de Gomorra; Senaab, rei de Adama; Semeber, rei de Seboim, e Segor, o rei de Bela. Por essa época, esses reis pagavam tributos a Cordolaomor, rei de Elam, que, acompanhado pelos exércitos de quatro outras cidades, os haviam subjugado no vale de Sidim junto ao mar salgado.
Fortalecido pelas alianças, Samael tornou-se mais ousado em suas investidas, levando o terror e a destruição aos territórios de cidades distantes. Os exércitos de Cordolaomor e seus aliados que retornavam nesses dias de outras conquistas, enfurecidos pelas provocações de Samael, marcharam contra os quatro reis, vencendo-os novamente no vale de Sidim. Foi nessa ocasião que levaram cativos os habitantes de Sodoma, entre os quais encontrava-se o meu sobrinho . Acovardados diante do furor dos cinco reis, Samael e seus seguidores esconderam-se em suas cavernas, ao norte do mar salgado.
Capitulo XI
Os doze meses contados a partir do grande sacrifício estavam prestes a terminar. O cetro, totalmente restaurado, resplandecia em seu estojo, enquanto o príncipe, igualmente restabelecido das feridas causadas pela rebeldia, alegrava-se ao ver chegar o Yom Kipur de sua coroação. Enquanto isso, ele compunha lindas canções que expressavam o seu amor por Salém. Naqueles doze meses, a cidade da paz tornara-se mais bela, sendo adornada qual noiva para o grandioso dia da coroação.
A uma semana para o Yom Kipur, Samael, totalmente inconsciente de que o dia de seu julgamento se aproximava, reuniu os seus seguidores, anunciando-lhes que a próxima missão seria a conquista de Salém. Antes de avançarem, contudo, ele subiria sozinho para verificar os pontos vulneráveis da cidade. Depois de ser aplaudido pela turba, Samael partiu em sua missão de reconhecimento. Enquanto avançava sozinho, procurava não se lembrar daqueles momentos que lhe trouxeram terror pela culpa, mas, dominado por uma força superior, foi arrastado em suas lembranças para aquele monte da cruel tortura.
Todo o seu passado começou a vir-lhe à lembrança, como um peso esmagador. Quando despertou de suas lembranças, das quais não conseguiu fugir, já era noite. A escuridão que o envolvia pareceu-lhe o prenúncio de um triste fim. Esse desânimo, contudo, procurou bani-lo com a lembrança do exército que o esperava, pronto para cumprir suas ordens, na conquista de Salém, onde não haveria lembranças daquele pergaminho.
O alvorecer o alcançou próximo de Salém. Ao avistar o monte das Oliveiras, veio-lhe à lembrança a última vez que o transpôs, deixando para trás a cidade vencida. Quantas noites haviam passado desde então? Ele perdera a noção de tempo, não sabendo que justamente doze meses haviam se passado. Não podia imaginar que raiava naquela manhã o Yom Kipur, o dia de seu julgamento. Ao chegar ao topo do monte das Oliveiras naquela manhã, Samael surpreendeu-se ao ver que a cidade tornara-se mais bonita que outrora. Toda ela estava adornada de ramos e flores, como uma donzela à espera de seu noivo. Contudo, Salém estava abandonada, não havendo nenhum sinal de vida em todas as suas mansões. Isto o fez concluir que os golpes, que haviam aniquilado o príncipe e o cetro, trouxeram como conseqüência todo aquele abandono. Ele não sabia, contudo, que naquele momento todos os remanescentes daquele reino, encontravam-se ocultos no grande salão do palácio, aguardando pelo momento mais glorioso da coroação de Melquisedeque.
Imaginando-se exaltado sobre o trono abandonado, tendo a seus pés os exércitos vitoriosos, o rebelde penetrou na cidade, dirigindo-se apressadamente ao palácio. Ao transpor o portal principal que dava entrada ao salão principal, ficou surpreso ao ver ali reunida uma multidão de fiéis. Sobre um áureo tablado, enfeitado de flores talhadas em pedras preciosas, encontra-se o trono vazio. Na base do trono estava o pergaminho das leis, uma coroa de ouro cheia de pedras preciosas e o estojo que deixara vazio naquela noite de traição. Sem entender o enigma, Samael escondeu-se por trás de uma coluna, temendo ser reconhecido, e ficou observando. Os súditos, com expressão de feliz expectativa, olhavam para o trono vazio. Onde encontravam eles motivos para toda essa alegria, se haviam perdido o seu rei juntamente com o cetro? Samael questionava sobre esse mistério, quando Adonias, aplaudido pelos súditos, encaminhou-se para junto do trono. Com voz cheia de emoção pela vitória, o fundador de Salém anunciou que havia chegado o momento tão sonhado da coroação. Um brado de triunfo ecoou pelos ares quando, anunciado pelo seu pai, entrou o amado príncipe encaminhando-se em direção ao trono. Ao vê-lo coberto por um manto de glória, Samael ficou possuído por um terrível pavor, e procurou fugir. Descobriu, contudo, que todos os portais do grande salão estavam fechados por fora.
Teve início a cerimônia da coroação. Era um momento deveras solene. Adonias, num gesto reverente, tomou a rica coroa, colocando-a na fronte de seu filho. Prostrando-se depois sobre o estojo, abriu-o cuidadosamente, tirando dele o alaúde restaurado, cuja beleza e brilho eram muito superiores à sua primeira condição, ao sair das mãos de Adonias o seu luthier. Assentando-se no trono em meio às aclamações dos súditos, Melquisedeque passou a dedilhar o cetro, tirando dele acordes de muita harmonia e paz. Todos se aquietaram para ouvirem suas novas composições que expressavam o seu profundo amor pelo cetro e por todo aquele reino de paz.
Grande emoção invadia o coração de todos naquele momento, levando-os às lágrimas. Samael, sem forças para reagir, sentia-se torturado por aqueles acordes que faziam reviver em sua mente suas oportunidades perdidas, numa terrível dor para sua consciência. Melquisedeque compusera para aquele momento especial, canções que retratavam os momentos marcantes da história de Salém; Quando passou a cantar sobre a amizade que tinha por Samael, sua voz embargou-se pelas lágrimas que não conseguia conter. Triste para ele era cantar sobre a queda daquele que foi-lhe o maior amigo! Cantou então sobre o alto preço que teve de pagar pela reconquista do cetro, que representa a honra de Salém.
Ao contemplarem aquelas mãos marcadas pelas cicatrizes, tocando com tanta maestria e carinho o cetro restaurado, os súditos tomados por forte emoção, prostraram-se em pranto. Ao ver nas nãos de Melquisedeque aquele alaúde que, em suas mãos fora instrumento de tortura, Samael compreendeu, tarde demais o quanto errara, desviando-se dos conselhos do príncipe; Quantas vezes aquelas mãos sobre as quais descarregara toda aquela violência haviam sido estendidas num esforço de salvá-lo, e ele as havia negligenciado. Agora, era tarde demais! Tarde demais!!!
Capitulo XII
Os súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo aquele passado de felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente as vozes numa jubilosa proclamação:
  • Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de reinar em glória e majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em teu sacrifício nos livraste das ameaças das trevas, fazendo renascer em nosso coração a alegria do alvorecer.
Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de todos os fiéis em sua vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro redimido, passou a selar com um toque especial do cetro, a vitória de cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de aprovação do rei, posicionavam-se ao lado direito do trono, onde permaneciam aguardando pela confirmação dos outros.
Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento dos últimos justos, pousaram sobre a figura estranha de Samael que, dominado por uma força irresistível, encaminhava-se cabisbaixo em direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido deformado pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele repugnava, ao ponto de ninguém reconhecê-lo. Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono como que ferido por uma grande dor; de seus lábios os súditos ouviram uma dolorosa exclamação:
  • Samael, Samael!!!
A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de tristeza, e começaram a prantear. Eles lamentavam por saber que o destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram, poderia ter sido muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias e de seu filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo como o guardião do pergaminho, sendo o segundo em honra naquele reino?
Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do trono, ao presenciar toda aquela lamentação, foi novamente iludido pelo orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração de fraqueza de seus inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguardava na planície, iludiu-o com a certeza de que seria vitorioso sobre Salém. Com esse pensamento, ergueu a fronte marcada pelo ódio e, fitando o rei, levantou o punho cerrado e o desafiou, desdenhando de sua autoridade, com a ameaça de tomar-lhe o trono. Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram a ousada afronta daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto sofrimento, ainda era capaz de erguer-se com tamanho desafio.
O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista dos fiéis, ergueu-o dolorosamente para o selamento da triste sorte dos rebeldes. Imobilizado por uma força estranha, Samael, sem desviar os olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento e de todos os seguidores: Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas por seis anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os destruiria juntamente com as cidades que a eles se aliaram.
Capitulo XIII
Ao ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei, imerso nas lembranças daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve um sonho muito significativo. No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso, dizendo-lhe que todo o Universo acompanhava com atenção aquele drama que estavam vivendo, e que o mesmo tinha um sentido prefigurativo, retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o vasto universo.
As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de conhecer a história desse drama cósmico. Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um distante futuro. Diante de seus olhos manifestaram-se as glórias de uma nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e mansões eram de pedras preciosas; os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas de quilômetros. Estava dividida em dois setores distintos: Norte e Sul. Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações eternas de anjos e de seres humanos redimidos. Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida, havia campos repletos de todo tipo de vegetação, com flores e frutos em abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as espécies de aves e animais.
No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo afirmou ser o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Era daquele monte que emanava o rio da vida, fluindo por toda a cidade. Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou deslumbrado com o cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte mais elevada de Sião a mais linda de todas as edificações revelado pelo anjo como o palácio de Deus. Aquela magnífica construção era sustentada por sete colunas, todas de ouro transparente, engastadas de lindas pérolas. Ao redor do palácio, floresciam a mais exuberante vegetação: havia ali o pinheiro, o cipreste, a oliveira, a murta, a romãzeira e a figueira, curvada ao peso de seus figos maduros.
Enquanto admirava-se ante a beleza daquele lugar, o anjo disse-lhe que a nenhum ser humano fora dado o privilégio de ver o interior daquele palácio de Deus. A ele seria dada esta honra, pois fora escolhido para ser o portador das mais amplas revelações sobre o reino da luz. Ao transporem com reverência um dos portais de pérolas, prostraram-se em adoração, enquanto ouviam o cântico de uma multidão de serafins, que circundavam o trono, em constante louvor Àquele que Era, que É e que Sempre Será. Ao olhar para Aquele que estava assentado sobre o trono, Melquisedeque ficou surpreso ao descobrir a figura de um homem. Ele estava coberto por um manto de linho fino, de uma alvura sem igual, e tinha sobre a cabeça uma coroa formada por sete coroas sobrepostas, repletas de pedras preciosas.
Ao olhar para as mãos que sustentavam o cetro, o filho de Adonias ficou surpreso ao descobrir nelas cicatrizes de ferimentos, semelhantes àquelas em suas mãos. O anjo afirmou-lhe ser o Messias, o Grande Melquisedeque, a manifestação visível de Yahweh, o Deus Invisível. Atraído para o cetro resplandecente, com o qual o Messias governava sobre todo o Universo, o rei de Salém viu nele o selo do domínio, e nele escrito o nome: Israel. Tomado por profunda emoção, Melquisedeque prostrou-se ante o Rei daquela eterna Salém, e, revivendo ali a história de sua pequena cidade, teve desejo de conhecer o grande drama da história universal. Conhecendo o desejo de seu coração, o anjo disse-lhe:
  • Agora lhe farei conhecer a história desta gloriosa Salém. Tudo o que lhe for mostrado na visão, você deverá registrar fielmente em um rolo. Você terá seis anos para escrevê-los. Ao fim dos sete anos, você receberá das mãos de um ancião um vaso contendo um rolo especial, com muitas revelações importantes, entre as quais estará a história de Salém. Você tomará esse rolo, e o costurará ao seu, formando um único rolo. Você o devolverá juntamente com o vaso ao patriarca para que ele o leve ao lugar que lhe mostrarei, onde ficará oculto até o fim dos dias. As revelações desse grande rolo, consistirão na luz e no consolo que enviarei aos escolhidos por ocasião da última semana de anos da história.
Depois de falar ao rei de Salém estas palavras, o anjo conduziu-o em visão a um infinito passado, quando o Universo ainda não existia. Uma história muito parecida com a de Salém passou a desdobrar-se diante de seus olhos; porém, numa dimensão infinitamente maior, começando pela criação do reino da luz. Com admiração contemplou a formação de bilhões de mundos e estrelas, repletos de vida e felicidade que passaram a girar em torno da Salém Celeste, o paraíso de Deus. Sua atenção voltou-se depois para o mais belo de todos os querubins que, honrado pelo Criador, passou a residir com Ele em Seu palácio. Uma eternidade de felicidade e paz parecia embalar aquele reino, quando a mesma experiência de egoísmo e rebeldia vivida por Samael, começou a repetir-se na vida daquele anjo amado. Cenas de uma grande rebelião começaram a ser mostradas a Melquisedeque, envolvendo todos os habitantes do Universo. O querubim honrado, semelhante a Samael, seduzira um terço das hostes que, passaram a reverenciá-lo como rei.
Em meio às cenas daquele grande conflito, o rei de Salém testemunhou a criação do planeta Terra, sobre a qual surgiu o homem como cetro racional daquele reino disputado. Com agonia viu o momento em que o chefe da rebelião aproximou-se subtilmente do paraíso, apossando-se do ser humano, depois de seduzi-lo com tentações. Ouviu então o seu brado, numa proclamação de vitória. A partir daquele momento, o inimigo de Deus passou a arruinar o ser humano, apagando nele todos os traços da glória divina, como Samael fizera com o cetro.
A sua própria experiência, ao declarar naquela manhã aos súditos de Salém sua decisão de ir em busca do cetro perdido, começou a repetir-se diante de Seus olhos. Reunindo as hostes que haviam permanecido fiéis ao Seu governo, o Criador passou a revelar um plano de resgate: Ele haveria de ir em busca do homem, e o remiria, ainda que isto lhe custasse infinito sacrifício. Diante desta revelação, o filho de Adonias prostrou-se comovido, ao descobrir que em sua vida tivera a honra de retratara o próprio Messias.
Todo o drama vivido pelo filho de Adonias em sua angustiante busca, até o momento de seu suplício pela redenção do cetro, foi ganhando amplitude naquela visão que abarcava toda uma eternidade. Diante de seus olhos desfilavam cenas de uma grande batalha que, sem trégua se estenderia até o dia do juízo final, quando o Messias, o Grande Melquisedeque, vitorioso, empunharia o cetro redimido, selando com ele a condenação de todos os filhos de Belial..
Capitulo XIV
Através das revelações recebidas do anjo, Melquisedeque tomou conhecimento do livramento alcançado por ocasião de sua coroação, quando diante de trezentos pastores com seus vasos incendiados, exércitos de cinco reis tombaram, saindo livres os cativos. Conhecendo nossa intenção de subir à Salém por ocasião de Sukot, o rei fez preparativos para uma grande festa, na qual comemoraríamos juntos a vitória sobre toda a desarmonia gerada pelo orgulho e pelo egoísmo. Foi por isso que ao chegarmos a Salém, ficamos surpresos com toda aquela honrada recepção.
Ocupar-me com o relato de todos esses acontecimentos, fez-me passar por todo este sétimo ano, quase sem notar os seus dias, que passaram velozes. Estamos hoje às portas de um novo Rosh Hashanah, quando os 300 pastores tocarão os chifres, convocando todos aqueles que possuem as pérolas, para a reunião solene de Yom Kipur. Cinco dias depois seremos recebidos em Salém para a festa de Sukot. A certeza de que acontecimentos importantes ainda deverão ser relatados neste rolo, fez-me reservar um espaço, no qual registrarei, dia após dia, os fatos, até a consumação desta história que estamos vivendo.
Rosh Hashaná! Esse foi o dia mais feliz de minha vida, pois meus braços puderam receber o filho da promessa. A primeira coisa que fiz, foi colocar-lhe em sua mãozinha direita a Segunda pérola que o Messias deu a Sara no dia de sua conversão; Ele a segurou com firmeza, alegrando-nos com a certeza de que viverá para sempre ao nosso lado. Dois dias antes do Yom Kipur, Isaque foi circuncidado, conforme a ordem do Eterno. Desde que os pastores começaram a tocar seus chifres em Rosh Hashanah, todos aqueles que possuem pérolas do vaso, deixaram suas tendas, dirigindo-se em pequenos grupos, para junto do Carvalho de Mambré.
Ao chegar o Yom Kipur, o dia da reunião solene, meus pastores informaram-me que todos aqueles que haviam recebido as pérolas, haviam comparecido ao encontro, não faltando nenhuma pessoa. É maravilhoso ver a alegria estampada no semblante de toda essa multidão que anseia pela subida à Salém. Todos trazem uma história para contar, de como foram vitoriosos sobre tantos desafios e provações. Todos estão felizes com a expectativa da subida à Salém para a festa de Sukot.
No primeiro dia da festa de Sukot, a multidão foi subdividida em pequenos grupos de doze pessoas, para subirmos em ordem à Salém. Tendo sobre os ombros o vaso com o rolo, posicionei-me à frente da multidão, sendo seguido por Sara e Isaque que vinham montados num camelo; Logo atrás vinha e suas filhas; um pouco atrás, os trezentos pastores seguidos por todos os fiéis.
Iniciávamos nossa escalada quando, acompanhado por todos os seus súditos, surgiu Melquisedeque vindo ao nosso encontro, fazendo vibrar pelos ares o som festivo de muitos instrumentos musicais, comemorando a grande vitória. Depois de saudar-nos, o filho de Adonias conduziu-nos numa marcha festiva até adentrarmos os portais de Salém, que encontra-se agora mais bonita que outrora. Antes de iniciar o banquete, Melquisedeque coroou todos os vencedores, enquanto as hostes de Salém faziam soar seus instrumentos, comemorando a feliz vitória..
Grande foi a alegria do rei de Salém quando entreguei-lhe o jarro com o manuscrito. Ao desenrolá-lo, fiquei surpreso ao ver sua atenção voltar-se para a última parte do rolo que ainda estava vazia. Como se estivesse lendo algo ali, ele me disse:
  • Abraão, de tudo o que você escreveu , nada me comove mais do que o relato que você registrará na última parte de seu manuscrito.
Melquisedeque mostrou-me em seguida um rolo escrito por dentro e por fora, no qual escrevera naqueles seis anos a história do Universo, conforme revelações feitas a ele por um anjo. Tomando o meu manuscrito, ele o costurou ao seu formando um grande rolo. Tendo feito isto, enrolou-o cuidadosamente, colocando-o dentro do jarro.
Ao chegar o oitavo dia da festa, num ato que surpreendeu a todos, o rei enalteceu o jarro, colocando-o sobre o seu trono. Ao ver o vaso que fora tão humilhado e rejeitado, agora glorificado em meio aos louvores de Salém, senti uma forte emoção e chorei; Era impossível olhar para ele, sem pensar no seu significado: era um perfeito símbolo do Messias prometido. Por intermédio dele, muitas vidas haviam sido libertas e transformadas, começando pela minha. Sem o dom daquele vaso, eu não teria hoje em meus braços meu querido Isaque pelo qual Sara e eu esperamos por tanto tempo.
Depois de entronizar o jarro, o filho de Adonias, chamando-me para junto do trono, passou a honrar-me perante todos os fiéis; Tomando a caixinha de ouro na qual colocara as 144 pérolas do dízimo, ele colocou-a em minhas mãos, afirmando ser um presente seu para Isaque. Como se não bastasse, ele tomou o vaso que continha o valioso rolo e, colocando-o aos meus pés, disse que ele pertencia a mim e aos meus descendentes para sempre. Com o coração repleto de alegria, prostrei-me diante do rei que me oferecia tão precioso dom, estendendo-lhe as mãos com a caixinha das pérolas. Tomando-a de minhas mãos, ele a colocou dentro do jarro sob o rolo, reafirmando sua doação.
Capitulo XV
Ao dirigir-me ao aposento naquela noite, tendo ao meu lado Sara, Isaque e o jarro com o seu tesouro, experimentava uma felicidade jamais sentida em toda a minha vida. Como me era difícil pegar-me ao sono, fiquei acordado por longo tempo, imaginando o futuro de glória de Isaque e do jarro, cuja mensagem de amor, justiça e paz, levaria esperança aos meus descendentes por todas as gerações, até a vinda do Messias. Imaginando esse futuro feliz adormeci e tive um sonho no qual muito sofri. No sonho, o Eterno apareceu-me e disse:
  • Abraão, toma agora o jarro o qual tanto amas, e leva-o ao Mar Salgado, onde lhe mostrarei uma caverna na qual você o ocultará
Depois de dar-me esta ordem, o Eterno entregou-me uma machadinha e um manto de linho, com o qual envolvi o vaso. Comecei então uma dolorosa jornada, levando sobre os ombros aquele que simbolizava a concretização de todos as minhas esperanças. Quando cheguei à região norte do mar, fui conduzido para junto da caverna que deveria ocultar o jarro. Colocando-o sobre uma pedra, num gesto de despedida, passei a acariciá-lo, enquanto contemplava os adornos e inscrições que o embelezavam; o pensamento de que não mais o teria comigo, enchia-me de profunda tristeza. Meus olhos voltaram-se para a figura de Melquisedeque que inclinava-se para receber recebê-lo repleto de jóias. De repente a figura do rei começou a ganhar vida e movimento, e foi crescendo até que todo o jarro transformou-se num belo jovem que me olhava com amor. Pensei a princípio que fosse o rei de Salém, mas olhando para suas mãos, não encontrei as cicatrizes. Ao ver que seus olhos eram tão parecidos com os de Sara, perguntei-lhe o nome. Ele respondeu-me com um sorriso que era Isaque, o meu filho.
Alegrava-me na presença de Isaque, quando a voz divina novamente soou-me aos ouvidos dizendo:
  • Abraão, toma agora o teu filho a quem amas, e sacrifica-o com a machadinha que eu te dei(1)
Aterrorizado ante a ordem divina, caí aos pés de Isaque, não encontrando forças nem coragem para realizar o terrível ato. Contudo, ele consolou-me, afirmando estar disposto a cumprir a vontade divina. Depois de terrível luta íntima, tomei a decisão de sacrificar meu filho. Ao erguer-me, vi que Isaque contorcia-se em grande agonia, enquanto o seu corpo tornava-se coberto de chagas que cheiravam mal. Sentia desejo de socorrê-lo, curando-lhe as chagas, mas a voz insistia em sua ordem, para que eu o sacrificasse. Tomei então a machadinha e a ergui sobre o seu pescoço. Quando meus braços moviam-se para o golpe, um forte clarão nos iluminou, e senti que a machadinha não mais estava em minhas mãos.
Ao erguer a fronte, me deparei com o peregrino que anunciara o nascimento de Isaque. Ele estava vestido com vestes brilhantes, de linho fino, branco e puro; Seu rosto brilhava como o sol, enquanto olhava-me com infinito amor. Abraçando-me, ele enxugou minhas lágrimas e disse:
  • Abraão, agora sei que você verdadeiramente me ama, porque não me negou nem o jarro nem o seu filho a quem você ama. Por causa desse amor, eu transformarei você no pai da fé, e muitos povos e nações se alegrarão na luz do rolo que lhe foi dado.
Tendo dito estas palavras, o Peregrino encaminhando-se para Isaque que contorcia-se em dor, colocando as mãos sobre sua cabeça. Esse contato fez com que todas as impurezas que manifestavam-se em chagas purulentas no corpo de meu filho, se transferissem para o Seu corpo, enquanto a Sua glória era transferida para Isaque. Fiquei possuído por um misto de alívio e pesar - alívio por ver Isaque restaurado, mas aflito por contemplar o Messias opresso por tantas culpas. Por entre gemidos de dor ele afirmou:
  • Eu morrerei, para que Isaque e sua descendência possa ser justificada, redimida e glorificada perante Yahweh.
Ao voltar-me para o meu filho que fora liberto, vi que seu lugar fora ocupado por doze jovens que se chamavam: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulon, José, Benjamim, , Naftalí, Gad, Aser. Quando lhes apresentei o Peregrino sofredor, eles o menosprezaram por não verem nele nenhuma beleza que os atraíssem. Finalmente eles o conduziram como um cordeiro e o sacrificaram, lançando o seu corpo dentro daquela caverna.(2)
Sobrevieram logo depois as trevas de uma longa noite, na qual fomos atacados por um grande exército que, depois de ferir-nos, arrancou-nos de nossa terra, espalhando-nos por entre as nações. Ali, todos os que nos encontravam nos humilhavam e perseguiam, acusando-nos da morte do Peregrino, e assim sofremos por toda a noite. Quando o dia estava quase raiando, sobreveio-nos o maior sofrimento, pois nossos inimigos, depois de uma pequena trégua, investiram sobre nós com a intenção de nos destruir completamente. O Eterno, contudo, bendito seja o Seu nome, teve compaixão de nós e nos libertou, reconduzindo-nos para a Terra Prometida. Mas mesmo ali não encontramos descanso, pois tínhamos de estar sempre atentos, defendendo-nos de muitos inimigos que procuravam nos destruir.
Cansados desses conflitos, nos aproximamos de nossos inimigos propondo uma aliança de paz; quando o acordo estava prestes a se concretizar, um desentendimento envolveu-nos num conflito ainda maior. Enquanto ouvíamos gritos de todos os lados clamando contra nós, vimos baixar as trevas de mais uma escura noite. Angustiados, passamos a clamar ao Eterno, dizendo:
  • Até quando Senhor buscaremos a paz e não a acharemos?! Ansiamos pelo descanso que nos prometestes, mas somente encontramos o furor de nossos inimigos! Auxilia-nos Senhor! Até quando teremos de esperar?!
Enquanto clamava em minha angústia, o Senhor veio ao meu encontro e disse-me:
  • Abraão, olha para o céu e conta o número das estrelas.
Ao olhar para o céu, vi que as estrelas moviam-se formando pequenos grupos de doze. Esses grupos por sua vez, juntavam-se de doze em doze, em formações perfeitas de 144 estrelas. Finalmente todo o céu cobriu-se por esses agrupamentos estelares: eram ao todo 40 grupos, somando um total de 5760 estrelas. Enquanto imaginava o que poderia significar o número daquelas estrelas, vi surgir no meio delas outra especial que foi aumentando em brilho e grandeza. A sua luz crescente, deu-me a certeza de que aquela noite seria finalmente vencida, e alcançaríamos um alvorecer de paz. A estrela de número 5761 continuou aumentando até que tornou-se do tamanho da Lua, e nela pude ler em letras muito brilhantes a palavra: Sábado, e abaixo, o nome de Israel.
Quando os raios que emanavam das letras sagradas começaram a penetrar as trevas da noite, atraindo a atenção de muitos sobre a Terra, ventos fortes vindos do Norte começaram a soprar, trazendo pesadas e negras nuvens em direção da estrela. Formou-se um cerco de trevas, enquanto camadas sobre camadas de nuvens foram comprimindo a estrela que, sem forças para resistir, foi-se apagando até que mergulhou em completa escuridão. Com o coração aflito, continuei olhando na direção da estrela oculta, sem perder a esperança de que ela seria liberta das garras daquelas nuvens ameaçadoras.
Em diferentes partes do céu escurecido pelas nuvens, começaram a surgir pontinhos de luz que foram se
agrupando de sete em sete, até alcançarem o total de 483 estrelas. Sem temerem as ameaças das nuvens escuras, elas foram-se aproximando mais e mais até formarem um anel de luz em torno da estrela opressa. O brilho dessas pequenas estrelas fez renascer a esperança de um livramento, e a estrela cativa emitiu por entre as nuvens um tênue raio de confiança.
Ao estreitarem-se cada vez mais em torno da estrela escurecida, as 483 estrelas se fundiram finalmente a ela, comunicando-lhe sua luz. Nesse momento, um grande clarão tomou conta do céu, e todas as nuvens foram desfeitas, perdendo o seu domínio. A junção de todas essas estrelas, deu origem a uma estrela de incomensurável esplendor, semelhante ao Sol. Em forma de uma coroa que pairava sobre ela, podia-se ler: Yom Kipur - É chegado o Último Jubileu.
Assim que surgiu no céu a estrela do Último Jubileu, veio ao nosso encontro um pequeno beduíno, carregando sobre os ombros um pesado jarro. Sua face estava marcada por uma grande luta, mas refletia a luz da estrela que lhe dava consolo e indizível alegria. Em seu jarro estava escrito em grandes letras o seguinte: “Caiu! Caiu a grande Babilônia! Sai dela povo meu! (3)
Aproximando-se dos doze filhos de Israel, o pequeno beduíno saudou-os com um sorriso, e disse-lhes que viera de muito longe, trazendo-lhes uma mensagem e um presente da parte do Rei de Salém. Curiosos, mas ao mesmo tempo desconfiados, eles assentaram-se e ficaram esperando, enquanto o beduíno enfiava suas mãos no jarro. A primeira coisa que ele tirou dali foi um pequeno manuscrito com uma mensagem intitulada: O Último Jubileu: Um Texto Sobre Melquisedeque. Os doze olharam entre si surpresos, pois o título da carta estava relacionado com as palavras escritas na última estrela. Ansiosos por conhecerem o conteúdo do manuscrito, eles o tomaram e passaram a ler as seguintes palavras:
  • “Falarei sobre o Ano Jubileu, que encontra-se em Levítico 25:13. Nós lemos: Neste Ano Jubileu, tornará cada um à sua possessão”. Esta é uma parte do mandamento que cumprir-se-á nos últimos dias, no Período da Remissão, quando aqueles que estão em cativeiro serão libertos, conforme as palavras de Isaias: “O Senhor enviou-me para proclamar libertação aos cativos.”(3)
  • O Libertador é o Messias, que foi prefigurado por Melquisedeque, rei de Salém. Ele era e sacerdote do Deus Altíssimo, e pronunciou uma benção sobre o nosso pai Abraão. Como Sumo Sacerdote, o Messias que é nosso eterno Melquisedeque, receberá por herança o domínio sobre todas as coisas, e Abraão tomará parte nesta herança. Não somente Abraão, como também sua descendência terá esse privilégio, quando ela se unir a Deus numa eterna aliança. Naquele tempo, o próprio Senhor será a herança e patrimônio de Seu povo. No último jubileu, Deus restaurará o Seu povo, e eles retornarão, cada um, ao seu patrimônio. A libertação referida na Lei do Jubileu deve ser entendida com o sentido de remissão de suas culpas, e não haverá mais punição para aqueles que forem justificados. Isto ocorrerá na última semana de uma série de setenta semanas de anos, envolvendo nove precedentes jubileus.(5)
  • Ao chegar o Dia do Juízo do Último Jubileu, todos aqueles que se colocam do lado da justiça, terão suas culpas anuladas, ao passo que os injustos e maus colherão as conseqüências de tudo o que semearam, e encontrarão o seu fim. (6)
  • Começará então o Ano do Favorável, do qual fala o profeta Isaias (61:2), que será marcado pelo Favor de Deus, pois o Rei da Justiça, Aquele que foi prefigurado por Melquisedeque, receberá o Seu domínio. Ele assentar-se-á entre as hostes santas no Céu, e executará várias sentenças de julgamentos, como foi predito por Davi: “Deus assentou-se em concílio entre os seres celestes, para realizar julgamento”.(7) Por meio desse julgamento, Israel será absolvido de suas culpas, e retornará ao seu lugar de eminência em meio aos povos. Esse retorno ocorrerá em cumprimento da Lei do Jubileu.
  • Ao mesmo tempo em que a palavra “Favor” indica o triunfo dos filhos de Deus, ela aponta também para a destruição dos ímpios. Salmos 7: 9 e 10 faz referência a esse julgamento, dizendo: “Deus é o juiz dos povos. Põe fim à maldade dos ímpios e confirma o justo”. Serão desarraigados todos os filhos de Belial, aqueles que desafiam os estatutos de Deus, e pervertem a justiça. O futuro Rei da Justiça, que é Melquisedeque (o Messias) executará sobre eles a justiça de Deus, estabelecendo ao mesmo tempo os justos. Acompanhado pelos exércitos celestes, ele dará fim aos intentos dos ímpios, fazendo com que os filhos de Deus fiquem em eminência. O julgamento em questão é o mesmo Dia da Retribuição do qual fala o profeta Isaias: “Como são belos sobre os montes os pés daquele que proclama a paz (Shalom), o mensageiro que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação; que diz a Sião: O teu Deus agora é aclamado Rei.”(8) A palavra paz (shalom) pode também ser lida como (shillum) que significa “retribuição”.
  • O mensageiro prometido se manifestará no Último Jubileu, e proclamará a sua mensagem de paz, dizendo: “ O Senhor enviou-me para confortar todos os que choram.” (9) O conforto que ele trará, consistirá numa revelação das sucessivas eras da história do universo, desde o princípio da criação até o fim. Naquele tempo, os filhos de Belial se aliarão com o propósito de perverter toda a justiça, mas serão confundidos pelos julgamentos de Deus.
  • O reino de Deus em Sião, será estabelecido mediante a aliança que Melquisedeque ( o Rei da Justiça) fará com todos os justos , destruindo ao mesmo tempo os filhos de Belial. O mandamento do jubileu fala também de um forte som de trombeta que repercutirá por toda a terra, no dia dez do sétimo mês.(10) Aplicando-se aos últimos dias, isto se refere à uma poderosa manifestação divina que sacudirá o mundo, preparando-o para a Era Messiânica” (*)
(*) O texto em destaque é uma tradução livre do manuscrito original encontrado na Gruta 11 de Qunram, em janeiro de 1956, por beduínos da tribo de Taamireh.
Depois de lerem com atenção as promessas contidas no pergaminho, os doze voltaram-se para o beduíno que, curvando-se sobre o jarro, tomou um grande rolo de pele de cordeiro, escrito por dentro e por fora. Antes de entregar-lhes, afirmou que a mensagem de consolo prometida no manuscrito que acabavam de ler, estava contida naquele rolo especial. Ao abrirem-no, vi que era o Livro de Melquisedeque, composto pelo manuscrito do rei de Salém e pelo meu. A leitura dos relatos ali contidos comoveu-os profundamente, levando-os a compreenderem que aquele a quem menosprezaram e entregaram para a morte, era o Messias prometido, o grande Melquisedeque que, em virtude de seu sacrifício, os libertara naquele Último Jubileu.
Cheios de arrependimento, choraram amargamente, mas foram consolados pelas revelações contidas no manuscrito do rei, onde as sucessivas eras da história eram contadas em ricos detalhes, desde o princípio da criação até aquele tempo.
Ao terminarem a leitura do Livro de Melquisedeque, os doze prostraram-se reverentes, e louvaram ao Eterno pelo consolo que lhes enviara, através de tão humilde mensageiro. Curvando-se sobre o jarro, o menino tomou uma caixinha de ouro ornamentada com pedras preciosas, na qual haviam 144 pérolas de variados tamanhos. Afirmando ser um presente de Melquisedeque para eles, o beduíno passou a distribuí-las, doze para cada, começando por Rúben. Aquelas pérolas simbolizavam a vitória que haviam alcançado mediante a concretização de uma nova e eterna aliança com o grande Melquisedeque, que é o Messias.
Depois de louvarem ao Eterno pelas pérolas que selavam a vitória alcançada, os doze, num gesto de reconhecimento e gratidão, passaram a honrar o humilde beduíno que, por meio de lutas e sacrifícios, resgatara das trevas todos aqueles tesouros, para ofertar-lhes naquele Jubileu. Representando os seus irmãos, Rúben, o primogênito, tomou um de seus melhores mantos e cobriu o corpo desnudo do menino. Aquecido por aquele manto que simbolizava sua maior conquista, o beduíno emocionou-se ao ver que ele trazia, do lado de seu coração, um distintivo precioso, com a gravura de uma cruz vermelha da qual saiam raios dourados. Isto fez com que reconhecesse que toda aquela honra recebida, pertencia ao Messias que resgatou-o das profundezas de uma caverna, conduzindo os seus passos através de caminhos perigosos e solitários, até que pudesse entregar aos filhos de Israel os tesouros contidos no jarro. Ele devia também aquela conquista aos seus três irmãos, sem os quais não teria encontrado aquele presente do rei de Salém. A lembrança de seus irmãos o fez chorar de saudade, e desejou muito beijar suas faces, compartilhando com eles toda a honra recebida.
Num gesto surpreendente que consolou o coração do menino, Rúben tomou três de suas pérolas mais brilhantes e, colocando-as numa caixinha vermelha, entregou-as ao menino e disse:
  • Estas pérolas são para os seus irmãos.
Logo depois surgiram ao longe a figura de três beduínos que caminhavam ao nosso encontro, trazendo jarros em seus ombros. Quando os viu, o menino alegrou-se ao descobrir que eram os seus irmãos. O mais velho tinha em seu jarro uma inscrição que dizia: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora de seu juízo.(11) O segundo trazia no vaso a mesma inscrição contida no jarro do menino, porém em letras menores e menos brilhantes: Caiu, caiu a Grande Babilônia!(12) O terceiro carregava um vaso um pouco maior que os dois anteriores, e nele estava escrita uma advertência: Se alguém adorar a besta ou a sua imagem, e receber o sinal na fronte, ou na mão, também o tal beberá do vinho da ira de Deus, que se acha preparado sem mistura, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. Abaixo desta advertência, em grandes letras lia-se o seguinte: Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Deus e tem a fé do Messias.(13)
Quando eles viram o seu irmão mais novo em honra perante os filhos de Israel, correram ao seu encontro e prostraram-se, depondo os seus jarros aos seus pés. Em grande pranto revelaram o seu arrependimento pelo desprezo e sofrimentos pelos quais o fizeram passar. O pequeno beduíno inclinando-se para os seus irmãos com amor, beijou-lhes as faces, e falou-lhes que tudo o que lhes acontecera, fora para o bem. Depois de consolarem-se, os filhos de Israel prepararam um banquete em homenagem ao pequeno beduíno e aos seus irmãos. No banquete o rolo foi mais uma vez aberto, e todos alegraram-se com sua mensagem. Quando estavam quase ao fim da festa, o menino honrou os seus irmãos na presença de todos, dando-lhes as pérolas recebidas de Rúben. O mais velho recebeu a pérola menor, o do meio a pérola de tamanho médio, e o mais novo a maior. Eles ficaram felizes ao receberem aquelas jóias que simbolizavam sua vitória.
Todos tinham agora suas pérolas, menos o menino, cuja alegria consistia em ver os filhos de Israel e seus irmãos enriquecidos pelos presentes do Rei. A maior e mais brilhante de todas as pérolas, contudo, Rúben separara para ele. Quando a recebeu, seu coração transbordou de indizível alegria, vendo nela o símbolo de seu triunfo. Na pérola havia três inscrições: Melquisedeque, Eliahu Hanavi e Nova Jerusalém.
Depois da festa, o pequeno beduíno procurou pelo seu jarro, e ficou surpreso ao encontrá-lo repleto de
pérolas. Com muito esforço, tomou-o em seus braços, levando-o para junto de seus irmãos que tinham os seus jarros vazios. Começando pelo primogênito, ele foi compartilhando o tesouro, até que todos os vasos se encheram com aquelaslindas pérolas. Renascidos pelo arrependimento e movidos pela gratidão, os três beduínos juntamente com os doze filhos de Israel, seguiram os passos do menino na realização de uma importante obra sobre a Terra: Sua missão seria abrir perante o mundo o Rolo de Melquisedeque, oferecendo a todos quantos aceitassem sua mensagem, aquelas pérolas que simbolizam a vida.
Durante seis anos a humanidade teria a oportunidade de conhecer a mensagem do rolo, e as advertências escritas naqueles jarros, apossando-se das pérolas da salvação. Ao fim dos seis anos, os jarros se esvaziariam e o rolo seria fechado. Enquanto os anos da oportunidade se escoavam, multidões acorriam de todas as partes em busca da mensagem do rolo e das pérolas. Olhando para os céus, descobri que a cada novo ano que era representado por um dia da semana, uma nova estrela surgia ao lado da estrela do jubileu, iluminando cada vez mais a Terra com a sua glória. Ao fim dos seis anos de oportunidade, o mundo achava-se dividido em duas classes de pessoas: os possuidores das pérolas da salvação, que são chamados filhos de Deus, e os que rebelaram-se contra a mensagem do rolo, os filhos de Belial.
Ao expirar-se o tempo da oportunidade, no momento em que as seis estrelas do jubileu enchiam toda a Terra com sua claridade, soou uma voz desde os céus, dizendo: Está Consumado! Quem é injusto , faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; quem é justo, faça justiça ainda, e quem é santo, santifique-se ainda. Eis que cedo venho, e esta comigo a minha recompensa, para retribuir a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o derradeiro, o princípio e o fim. Bem aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras e todo o que ama e pratica a mentira.(14)
Quando o Messias, que é Melquisedeque, proclamou o decreto, o rolo foi fechado, pois não havia mais pérolas nos jarros. Subitamente as seis estrelas se apagaram, mergulhando o mundo em completa escuridão. Surgiu então no céu uma estrela vermelha, cujos raios traziam luz e proteção para os filhos de Deus, ao passo que para os ímpios traziam trevas e sofrimento. Isto fez com que eles blasfemassem contra Deus, levantando-se contra os Seus redimidos No momento mais difícil, quando as mãos dos ímpios pesavam sobre os justos prestes a destruí-los, a Terra foi sacudida por um grande terremoto.(15) Em meio às nuvens negras, surgiu o brilho de uma estrela que foi crescendo rapidamente, até cobrir todo o céu. Hozanas de vitória ecoaram por todas as partes, quando os remidos contemplaram a face do Messias que vinha em seu socorro, acompanhado pelos exércitos dos céus.Diante de sua presença majestosa, os ímpios fugiram, mas foram consumidos pelo fogo.(16)
O Messias fez soar sua trombeta, e todos os justos mortos ressurgiram com corpos perfeitos e imortais. Logo depois, os justos vivos foram transformados, recebendo, igualmente, corpos incorruptíveis. Acompanhados pelos anjos, fomos arrebatados para o encontro com nosso Rei e Redentor nos ares. Ele nos recebeu com indizível alegria, e nos conduziu numa viagem inesquecível rumo à Nova e Eterna Jerusalém. (17)
Ao entrarmos na Cidade Santa, ficamos deslumbrados diante de tantas maravilhas. Fomos conduzidos ao paraíso, onde fora preparado um grande banquete para nós Ali, diante do trono, em meio às hosanas angelicais, fomos coroados pelo Messias, recebendo um reino de paz que jamais findará. Enquanto desfrutava as delícias do Éden, acordei e vi que tudo fora um sonho. Levantando-me, tomei Isaque nos braços e, sentando-me do lado do jarro, os acariciei até o alvorecer, enquanto relembrava as cenas marcantes de meu sonho.
Ao encontrar-me com Melquisedeque naquela manhã, desejei contar-lhe o meu sonho. Mas antes que eu lhe dissesse algo, ele fitou-me com um olhar muito parecido com o do Messias, e me deu uma ordem:
  • Abraão, toma agora o jarro que você tanto ama e leve-o ao Mar Salgado, onde lhe mostrarei uma caverna na qual você o esconderá.
Tomando uma machadinha e um manto de linho, o rei acompanhou-me até a caverna que eu vira no sonho, onde assentei-me para registrar estas últimas palavras. O rolo será agora lacrado, e será deixado no silêncio da caverna, e permanecerá oculto até que seja aberto perante as nações, no Último Jubileu.
Referências: (1) Gênesis 22: 1, 2; (2)Isaias 53; (3)Apocalipse 18: 2,4; (4)Isaias 61: 1; (5)
Levitico 25:10; Daniel 9: 24,25; (6) Levítico 25:9; (7)Salmo 82: 1; (8) Isaias 52:7; (9) Isaias 61: 3;
(10) Levítico 25: 9; (11) Apoc. 13:7; (12) Apoc. 13:9; (13)Apoc. 13:9 – 12; (14)Apoc. 22: 11-15;
(15) Apoc. 16: 17-21; (16) S. Mateus 24: 29-31; (17)I Coríntios 15: 50-55; Apoc. 21 e 22.
Fim